30 de Junho de 2006

Vantagens...

:))))

Mil palavras em palavra nenhuma

foto descaradamente "furtada" ao Rodrigo, no Corta-Fitas

" (...) Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão (...)" - Vergílio Ferreira, Pensar

Esta foto lindíssima, cheia de silêncios, impressionou-me de tão bela.

Arte é isto, impressionarmo-nos com um instante e ficarmos a sentir que algo falou connosco, que nos atingiu. Tudo nesta foto me marcou, memórias sem memória, espaço mutável, solidão de um galho de árvore quebrado, silêncio branco, as pedras... e apeteceu-me escrever sem razão nem porquê. Escrever um momento. E lembrei-me de Vergílio Ferreira. Para me preencher.

O amor é o amor


O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!

O amor é o amor - e depois?!

Alexandre O' Neill

Bom dia!

Pokojowa farma

Yerka

29 de Junho de 2006

Gerês


Descolo as pestanas a muito custo e não me apetece acordar. São oito e meia. Batem à porta. É o pequeno-almoço. Bebo o sumo de laranja e vou até à varanda sentir o perfume da manhã. Tanto verde e ar puro com a Caniçada lá ao fundo. Inspiro e escuto o ar…

É bom, simplesmente bom!

Já no carro e sem destino determinado, decido ir até às Caldas do Gerês, talvez até à Portela do Homem e seguir para Aguas Calientes.

Entretanto, estaciono nas Caldas para tomar uma bica, comprar chá de hipericão, carqueja para o arroz da dita e mel. Vou à loja do artesanato procurar qualquer coisa para os miúdos e para algumas amigas. Vão saber que me lembrei de todos apesar de me ter afastado por uns dias.

O Palace está em ruínas. Era um hotel engraçadíssimo, os corredores tinham nomes de flores, por onde eu e o meu irmão mais novo fazíamos corridas; no átrio, ao fim da tarde, sentávamo-nos com os primos a apreciar a “corrida dos coches” – matemática e pontualmente às 19h 55m os velhotes que ali estavam a tratamentos dirigiam-se em passo apressado a ver quem chegava primeiro à sala de jantar, para não perderem as suas mesas, onde repousavam religiosamente guardadas as suas garrafas de água e/ou vinho da refeição anterior. Decadente, com uma atmosfera fin de siècle, tinha o encanto da casa dos avós.

Carregada com o saco dos chás, do mel e da geleia real, que os meus filhos tomam com uma careta e a protestar que sabe a cera de ouvido… e a que respondo que são doces de Hogwarts… se o Harry Potter come, eles também… volto ao carro e arranco em direcção à serra. Decido ir até à Pedra Bela, um miradouro a 800 e tal metros de altitude com um vista fantástica.


Sentimo-nos pequeníssimos pontos perdidos no universo e, simultaneamente, enormes, porque podemos sentir em pleno toda aquela grandeza. O silêncio enche-se de rumores e vida que palpita, eu na natureza, parte dela completamente. Fico ali sentada nas pedras a saborear a brisa na pele e a solidão. Só quero sentir aquele afago. À memória chega um poema de Pedro Tamen:

Ouves, meu amor, a água que brotou
no côncavo da pedra que a tua mão marcou?

Ouves, meu amor, o passo do veado
correndo no caminho que só por nós pisado?

Entendes, meu amor, a voz que fala agora
do tempo que esperou, da lenta e só demora?

Já era onde nós somos a nossa paz presente.
Só nós entrámos nela e agora é que se sente.

Alumiam-se as noites, Deméter aparece,
tu sentas-te a meu lado e o trigo reverdece.

Estou com frio. Levanto-me e despeço-me daquela vista. Bela. É quase meio-dia. Como o tempo passa quando estamos bem!

Ainda sem ter encontrado a minha terra de ninguém, vou andando até Vilarinho das Furnas e entristece-me as árvores calcinadas que encontro pelo caminho. Aquele cinza dos seus caules aponta-nos a dedo a incúria e o desleixo que devotamos ao nosso ambiente, a nós próprios. Que planeta vamos deixar aos nossos filhos? Todos queremos dar-lhes o melhor no dia-a-dia. Por que não pensamos, também, em dar-lhes o melhor amanhã?

Paro o carro num desviozinho e fico-me a apreciar os cavalos que pastam descontraídos na colina. Fumo um cigarro e aprecio uns estrangeiros já entradotes que, de mochila às costas, palmilham a estrada com um ar saudável de quem está de bem com a vida.

Esmago meio cigarro no cinzeiro, quase que envergonhada por estar a poluir o ar que eles respiram. Discretamente, ponho o carro a andar e parto a pensar que tenho que deixar de fumar. Só preciso de uma boa desculpa e perder o medo de engordar desalmadamente.

A barragem está muito vazia, contorno a margem e tomo a direcção da Portela do Homem, pelo Campo do Gerês. Vou a Castro Laboreiro, por Espanha, porque encurto o caminho. Se houver cachorros à venda ainda levo mais uma dor de cabeça para casa!

Vou chegar só lá para as duas, duas e meia, e espero ainda poder almoçar. De preferência, cabrito assado ou uma costeleta de vitela, tenrinha e mal passada. Todo este ar puro abre-me o apetite e a antecipação dos petiscos ainda mais. Reconheço que sou gulosa e adoro comer, mas prefiro abster-me a comer mastagadas impróprias de serem apelidadas de comida! A minha sorte é que não como desmesuradamente porque seria um cubo andante!

Um bom cozido à portuguesa tira-me do sério! Ou as pernas de polvo grelhado da Bagoeira, em Barcelos. Um bacalhau assado em S. João de Rei. Huumm… Vim à procura da minha terra de ninguém e só penso em comida. Deve ser da hora, costumo almoçar ao meio-dia e meia por causa dos horários dos miúdos e o estômago está a reclamar a rotina que não lhe quero dar.

Deixei o restaurante, a sorrir com a estranheza que causou uma mulher a almoçar sozinha. Habituem-se meus amigos! As mulheres vão onde os homens nem sonham chegar! Quase trinta e um anos após a revolução e as mentalidades continuam ainda tão fechadas, absurdamente fechadas, para já não falar do atraso espiritual desta gente. Por inacreditável que pareça, são as mulheres as que menos evoluem em relação a si e ao entendimento do que é a igualdade. Secularmente convencidas, mesmo quando não reflectem nisso, de que são as evas causadoras do pecado, não compreendem para já que fomos condenadas pelos homens por sermos vida e o cálice do futuro. Até na questão da igualdade da mulher e do homem perante Deus, Cristo foi inovador, porque para os costumes da época era impensável haver mulheres entre os discípulos que seguissem um mestre. E as mulheres estiveram sempre com ele, são várias as que constam dos evangelhos. Lucas até afirma que o apoio financeiro às deslocações de Jesus provinha de um grupo de mulheres. Como pôde a Igreja suposta de Cristo subalternizar a mulher? Que temem os nossos homens de Deus para ainda não nos terem pedido desculpa? Só o medo de uma grande verdade os pode calar assim…

Enquanto comia, tracei o trajecto da tarde. Sigo por Lamas de Mouro até S. Gregório, depois para Melgaço, Monção, Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Terras de Bouro e regresso a S. Bento, onde vou dormir. Espero encontrar o tal sítio que sei que já conheço e onde me sentirei em terra de ninguém, onde poderei resgatar a minha paz interior e que é o objectivo deste meu vaguear.

Em Monção, junto à torre de menagem donde supostamente Deuladeu Martins terá atirado os pães aos castelhanos, demovendo-os do cerco, e ela nem conhecia Sun Tzu, a olhar o rio Minho ainda pensei seguir para Valença e ir até Santiago de Compostela ou La Coruña, poderia ficar no Reys Catolicos ou no Maria Pita, qualquer um é extremamente confortável. Mas não. Não é na Galiza que vou encontrar o que procuro. Como sei? Não sei. É intuição apenas.

Nas margens do Lima, logo à frente de Arcos de Valdevez, detenho-me a pensar em Sá de Miranda e na sua aurea mediocritas, no remanso da vida bucólica. E a fantasia leva-me a imaginar Títiro e Melibeu a apascentar as ovelhas e a tocar flauta numa tarde soalheira, deitados à sombra dos chorões generosos. Tento lembrar-me dos versos de Virgílio e testar o meu latim, lembro-me das aulas do Professor Aires sobre as Bucólicas e que me calhou a primeira para traduzir.
1983, Faculdade de Letras de Lisboa.

É um ano de que guardo recordações felizes. Há vinte e dois anos como eu era pueril, inocente e idealista. Mas não queria voltar atrás, nem a esse ano nem a outro nenhum. Está vivido e, para o melhor e o pior, é pretérito, mais que perfeito.

Sem encontrar o tal sítio que procuro, que acharei como se fosse uma descoberta, um tanto desiludida, meto-me à estrada e só pararei à porta da Estalagem de S. Bento da Porta Aberta. Sem desvios. Estou cansada e far-me-á bem um banho quente.

São Judas Iscariotes, pp. 21/5

Samba do grande amor



Chico Buarque e Gal Costa

Saint-Exupéry

1900/1944


"Para mim, esta é a mais bela e mais triste paisagem do mundo. É a mesma paisagem da página anterior, mas voltei a desenhá-la para vocês a verem melhor. Foi aqui que o principezinho fez a sua aparição na Terra e, depois,desapareceu.
Fixem bem esta paisagem para a poderem reconhecer se um dia fizerem uma viagem a África e forem ao deserto. Se passarem por ali, suplico-vos: não tenham pressa, fiquem um bocadinho à espera mesmo por baixo da estrela! Se Vier um menino ter convosco, um menino que se está sempre a rir, com cabelos cor de ouro e que nunca responde quando se lhe faz uma pergunta, já sabem quem ele é. E então, por favor, sejam simpáticos! Não me deixem assim triste: escrevam-me depressa a dizer que ele voltou..."

Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho

Rosa Mota, parabéns!


Faz hoje 48 anos. Uma mulher que contribuiu para o orgulho de ser português. Não, não jogava à bola e, sim, é mulher. Uma grande mulher, determinada, corajosa, abnegada, vencedora.

Lembram-se?! Então, lembrem-se enquanto está entre nós. Depois, as homenagens serão apenas para uns autarcas quaisquer, mais ou menos labregos, se regozijarem em mais uma festança e lucrarem com o mérito alheio.

Parabéns, Rosa Mota! Obrigada pelas medalhas, obrigada quando fizeste os nossos corações acompanharem-te descompassados nos metros finais das maratonas e quando corriam contigo à volta dos estádios com a bandeira na mão.

Obrigada e parabéns. Feliz aniversário!

Desencontro


Há uma rua
que cruza entre nós,
cheia de sinais e de placas,
cheia de gente estranha,
e nos separa assim como somos:

dois corpos que se atraem
comandados por dois corações
que se evitam.

Há muito movimento
na rua que cruza entre nós.

Por isso temos nos encontrado
tão pouco...

Ademir Bacca

Il piccolo portauovo

28 de Junho de 2006

Li e gostei

.) Titiação - A cidade vaga

.) Inveja - A destreza das dúvidas :))

.) Feira do livro, 2 - A origem das espécies

.) O diletante - A terceira noite

.) "Fala Zé" - Ademir Antônio Bacca

.) As teias da tradução, Grande Repórter e Mediatismos - Corta-Fitas

.) À pedrada, no estendal... - Crónicas da Lavandaria

.) Novidades - Escrita em dia

.) L de BANAL - Herdeiro de Aécio

.) Podia dizer que... - Inconfidências

.) Vernacular de Olhão - Jirenna

.) Não é só - Kontratempos

.) Dava um slogan simplex? e Justiça quentinha - Mais actual

.) Santo António já se acabou e o São João... - Nada te turbe

.) vários - Nu singular

.) Ilda mete os putos na barraca e Autonomia raptada - O Jumento

.) 10 milhões de "imeis" à borla - O mundo perfeito

.) Nosce te ipsum - Porque

.) Ai, que giro! - Porque

.) Coisas de velhos - Portugal dos pequeninos

.) Nas ruas da amargura - Portugal dos pequeninos

.) Estação - Prazeres minúsculos

.) Viva Rousseau! Viva Espinosa! Viva Kant! - Sobre o tempo que passa

.) Caricatura democrática - TomarPartido

.) Claro que não é estranho (3) - TomarPartido

Nova Vaga nº 4

Hoje


Vou rasgar todas as agendas velhas,
queimar todas as fotografias para que já não olho,
abrir as caixas do passado e deitar no lixo tudo o que lá guardei,
forçar a fechadura da memória e varrer-lhe todos os recantos,
reescrever todos os rascunhos e reinventar todos os esboços,
vou fazer uma chave nova de mim
e podes olhar para trás. Não serei eu nem estátua de sal.

Vaya con dios - Nah neh nah

Águas escuras

Yerka

Arrozal de madrugada

Às quatro da manhã, arranco
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?

Herberto Helder

27 de Junho de 2006

See you soon

26 de Junho de 2006

Empty spaces



What shall we use to fill the empty spaces,
Where we used to talk?
How shall I fill the final places?
How shall I complete the wall?

Pink Floyd

Vidas de cão

Maio de 1994, I., com mais quatro accionistas, constitui uma sociedade anónima com o capital social de 15 000 000 $ 00, correspondentes a 15 000 acções nominais. Sendo que 14 980 acções pertencem a I. e as restantes 20 são dos outros accionistas, cinco de cada. O capital correspondente às 14 980 acções de I. é realizado em espécie por incorporação de três propriedades avaliadas por um ROC, segundo o previsto na Lei e, como tal, publicado em D.R.. O conselho de administração é obrigatoriamente múltiplo.

Julho de 1997, I. morre por enfarte do miocárdio na sua casa, durante a noite, e deixa dois únicos herdeiros universais, os filhos, ambos maiores. Em Julho e Agosto, os herdeiros procedem à respectiva realização da escritura de habilitação e à declaração do património às Finanças. O cabeça de casal encarrega-se destas tarefas... e à revelia do irmão mais novo...

Setembro de 1997, num escritório de um conhecido advogado de Lisboa e que fora advogado de I., a companheira do herdeiro mais velho e mãe dos seus filhos apresenta-se a fazer um documento em que se intitula única dona das ditas 15 000 acções e em que nomeia como administrador único da sociedade o seu companheiro, autorizando-o a proceder à venda das propriedades de que a sociedade era detentora a uma empresa off-shore de Gibraltar.

3 de Novembro de 1997, num Cartório Notarial de Lisboa, o nomeado administrador único procede às escrituras em que vende as propriedades e recebe o valor por elas pago; a Notária faz a escritura jurando ser verdade ter verificado todos os documentos necessários e que permitem realizar o acto. Um destes documentos é obrigatoriamente a Certidão da Conservatória do Registo Comercial, pois só esta certidão é que pode validar e comprovar a titularidade do representante da sociedade.

7 de Novembro de 1997, despacho da Conservadora do Registo Comercial de Lisboa em que se lê que a nomeação de P. para administrador único da sociedade é "provisória por dúvidas" porque a sociedade só pode ter um conselho de administração múltiplo. Ou seja, não há titularidade legal para proceder a escrituras de compra e venda. Nenhum Notário honesto realizará qualquer escritura nestas condições. Porém, a escritura fez-se! E uma notária faz fé pública de que verificou o documento.

Quase nove anos depois, tudo continua em Tribunal. O dito advogado continua a ser o advogado de P. e da sua companheira. A Ordem não tomou qualquer medida quando soube do sucedido por falta de provas... será que ser filho de um antigo bastonário "vaporiza" as provas?... A Notária continua em funções. O outro herdeiro tem gasto rodos de dinheiro em processos, advogados, custas, deslocações e continuará à espera que a Justiça funcione... até ao desespero.

Vivemos num Estado de Direito, com mecanismos judiciais, mas perguntamo-nos onde está o Direito e a credibilidade?

Qualquer semelhança desta história com a realidade é pura realidade! Os documentos existem, nada é ficcionado.

Schubert

Der Wegweiser

Quem és tu...

Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.

Sophia de Mello Breyner

O Lago

Ler os outros:

.) Morreu o pai das séries - Comunicar a direito

.) A Igreja que eu conheço I e II - Corta-Fitas

.) Para memória futura - Escrita em dia

.) O menino da sua mãe - Herdeiro de Aécio

.) Abrir aspas - A História foi escrita por homens - Jirenna

.) Pai Nosso Missionário - Jovens & Missão

.) Quando comprar um Opel... - O Jumento

.) Martin Adler - Os canhões de Navarone

.) Centro Cultural - A qualificação do espaço urbano - Pedro Magalhães Ribeiro

.) Encerramento da Carta Aberta - Porque

.) Ilhas Galápagos na Austrália?! - Pululu

.) Illustration Friday XXXIX - Raim's blog

.) Elite - TomarPartido

25 de Junho de 2006

Missionário


"(...) Há pessoas que me escrevem a dizer que têm muita pena dos missionários,porque estamos perdidos no meio do mato a passar mal. Mas não é verdade. A vida que vivemos em Africa, pelo menos a vida que vivo no Sul da Etiópia, é muito mais saudável e natural que na Europa. Temos o essencial! Só nos faz falta o que temos e isso chega! Reencontrei a beleza de uma noite de luar ou do céu cor de chumbo salpicado de estrelas, a importância de ser senhor do tempo e de poder estar com as pessoas sem me preocupar com as horas, de viver ao sabor da vida sem ter de andar a correr atrás dos ponteiros do relógio. O Evangelho que anunciamos é também boa nova para nós, e de uma maneira especial, Deus faz-se muito próximo através das pessoas e do contacto com a natureza. Reaprende-se a prestar atenção aos pequenos detalhes que dão sabor à vida: um pássaro a voar, uma abelha a colher o néctar de uma orquídea selvagem, uma flor minúscula a espreitar por entre a pujança da erva verde..."

Pe. José da Silva Vieira, Dias Felizes

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Gostei, sofri... Viva a Selecção!

Aqui,

para acompanhar as cervejinhas... :)))

Portugal - Holanda

II. Sem "tu", não há "eu"


Ver o que está certo e não o fazer é cobardia

Confúcio, Anacletos, séc.VI/V a.C.


Os livros que ficaram por dizer. Mais um texto do Professor Anselmo Borges repleto de Humanismo e coragem.

A coragem de dizer que, embora a realidade seja só uma, a sua vivência depende da perspectiva por que a olhamos. O Humanismo de quem respeita as diferenças e tem consciência que a unidade se constrói na diversidade.

Do texto, releva o seguinte:

"(...) o diálogo não se impõe apenas como exigência para a paz. Ele é constitutivo do ser Homem, pois a identidade é atravessada e mediada pela alteridade. Sem "tu", não há "eu"."

"(...) Por causa da globalização, seremos cada vez mais uma sociedade-mundo, com sociedades cada vez mais multiculturais e multirreligiosas, num mundo policêntrico e multipolar (...)"

"(...) Já Não Antípodas!, escreve-se justamente no Atlas de História Universal, sob a direcção de José-Ramón Juliá, que "contemplar o mundo 'de pernas para o ar' abre novas perspectivas e ajuda a compreender a História"(...)"

"(...) Afinal, todos nos consideramos no centro do mundo! Não será isso inevitável? Não é sempre de facto a partir de nós que tudo vemos? Somos inexoravelmente uma perspectiva sobre o mundo. O mal começa quando pensamos que somos não só o centro, mas o mundo pura e simplesmente (...)"

"(...) no Extremo Oriente, lendo os jornais, podia constatar que os sumos interesses do mundo eram outros: precisamente os do Oriente e não os do Ocidente (...)"

Não existe um só caminho e ninguém é detentor da Verdade. Como também não será esta a necessidade do Homem actualmente, deter a Verdade. Que Verdade? Ao contrário do que o Relativismo nos poderia levar a supor - a existência de tantas realidades quantas os indivíduos que a percepcionam -, do que hoje nos apercebemos é que a realidade é uma só, a convivência de todos os seres num mesmo planeta, e que a vivem diferentemente conforme a perspectiva que dela têm.

Nietzsche defendia a inexistência de um critério de verdade por não haver dados puros a partir dos quais se possa construir um saber objectivo. Ortega y Gasset, por seu turno, diz-nos que "(...) la realidad, precisamente por serlo y hallarse fuera de nuestras mentes individuales, sólo puede llegar a éstas multiplicándose en mil caras o haces (...) La verdad, lo real, el universo, la vida –como queráis llamarlo– se quiebra en facetas innumerables, en vertientes sin cuento, cada una de las cuales da hacia un individuo. Si éste ha sabido ser fiel a su punto de vista, si ha resistido a la eterna seducción de cambiar su retina por otra imaginaria, lo que ve será un aspecto real del mundo. Y viceversa: cada hombre tiene una misión de verdad. Donde está mi pupila no está otra; lo que de la realidad ve mi pupila no lo ve otra. Somos insustituibles, somos necesarios (...). Dentro de la humanidad cada raza, dentro de cada raza cada individuo es un órgano de percepción distinto de todos los demás y como un tentáculo que llega a trozos de universo para los otros inasequibles. La realidad, pues, se ofrece en perspectivas individuales."

A globalização para ser feliz, um bem comum e para o bem comum, segundo percebi do livro homónimo de Rui Paula de Matos, terá de passar por esta noção perspectivista da realidade que vivemos e para a qual o Professor Anselmo Borges apela neste seu texto.

Sem "tu" não há "eu". Sem os outros, por mais diferentes que nos pareçam, por mais críticas que sejam as suas acções, por mais dissemelhantes de nós que sejam, não existimos. Só depois de apreendermos a sua realidade, respeitando-a, é que os poderemos compreender, entendendo que não têm que ser o reflexo da nossa imagem, nem nós o seu reflexo. O Eu não existe se não houver um Tu, é a base do diálogo, da comunicação. E é precisamente de comunicar que os povos precisam, em igualdade, visionando as diferentes percepções sem preconceito.

Aliás, o Eu só é pertinente porque existem e coexistem outros Eu (os outros), o nosso Eu é um Tu quando o Tu/Vós é o Eu. Perceber isto é a Tolerância, é o princípio da Coexistência pacífica, é a Fraternidade, em suma, é a Paz.

I. Sem "tu", não há "eu"









Os livros que ficaram por dizer

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Ao longo do ano lectivo que agora termina, realizou-se, na Universidade de Coimbra, por iniciativa da Reitoria e da Biblioteca Geral, uma série de debates sobre a problemática levantada por dez livros determinantes na História da Humanidade.

A escolha desses Dez Livros que Abalaram o Mundo resultou de um inquérito a professores das diferentes faculdades da Universidade. Por ordem de votação, foi este o resultado: A Origem das Espécies, de Charles Darwin; Bíblia; A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud; O Capital, de Karl Marx; D. Quixote, de Miguel de Cervantes; Princípios Matemáticos de Filosofia Natural, de Isaac Newton; Odisseia, de Homero; A Riqueza das Nações, de Adam Smith; Diálogo sobre os Dois Maiores Sistemas do Mundo, de Galileu Galilei; Teoria da Relatividade, de Albert Einstein.

Mas cá está! Não se aninha nesta selecção o perigo de esquecer tantos livros que foram também determinantes? E, sobretudo, não foram postos de lado livros de influência mundial, com origem no Oriente (aliás, por vezes, esquece-se que a Bíblia nasceu no Médio Oriente, com raízes também na Mesopotâmia)? Como se pode ignorar o Alcorão, que influencia hoje directamente mais de 1200 milhões de seres humanos, e outros?

Sempre atento aos grandes debates culturais e nunca esquecendo o Oriente, João Gouveia Monteiro, pró-reitor da Cultura da Universidade de Coimbra, encerrou o ciclo de debates com uma sessão dedicada à promoção do conhecimento e do diálogo entre o Ocidente e o Oriente - Virados a Oriente: Os Livros que Ficaram por Dizer. Nela, foram apresentados o Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, Gilgamesh, a mais antiga epopeia da Humanidade, originária da Mesopotâmia e onde já aparece o Dilúvio universal, o Ramâyâna e a Baghavad-Gitâ, representando a Índia, as Máximas, de Confúcio (China), o Sermão de Benares, de Gautama, o Buda. A assistência acorreu, muito numerosa e atentíssima, à Biblioteca Joanina.

Lembrei-me então de quando passei pela China. Na viagem de avião entre Pequim e Cantão, na China Airlines, lá estava aquela revista que as companhias aéreas colocam à disposição dos passageiros sobretudo para informarem sobre os destinos dos seus aviões e as rotas dos seus voos. Aí, ao olhar para o mapa, tive o meu pequeno choque: a quem está habituado a ver o mapa-múndi com o Mediterrâneo no centro apresentava-se ele agora tendo como centro a China - não se considerou a China sempre o Império do Meio? Por outro lado, no Extremo Oriente, lendo os jornais, podia constatar que os sumos interesses do mundo eram outros: precisamente os do Oriente e não os do Ocidente.

Afinal, todos nos consideramos no centro do mundo! Não será isso inevitável? Não é sempre de facto a partir de nós que tudo vemos? Somos inexoravelmente uma perspectiva sobre o mundo. O mal começa quando pensamos que somos não só o centro, mas o mundo pura e simplesmente.

Agora, há mesmo uma edição do mapa- -múndi, impressa na Austrália, em que o planisfério aparece invertido. E porque não? A imagem que temos do globo terrestre deve-se aos cartógrafos do Norte que a impuseram ao mundo, devido a determinados contextos históricos: o triunfo da Europa com os Descobrimentos e a sua visão global do planeta. Trata--se, no entanto, apenas de uma tentativa de representação, pois como se coloca a Terra esférica num plano?

Referindo-se a um mapa idêntico, editado na Nova Zelândia, com o Sul para cima e um título reivindicativo: Já Não Antípodas!, escreve-se justamente no Atlas de História Universal, sob a direcção de José-Ramón Juliá, que "contemplar o mundo 'de pernas para o ar' abre novas perspectivas e ajuda a compreender a História".

Afinal, um mapa é só uma representação do mundo, mas, nessa minha pequena experiência a bordo de um avião das linhas aéreas chinesas, fui surpreendido pela força da sua influência mental e histórica.

Por causa da globalização, seremos cada vez mais uma sociedade-mundo, com sociedades cada vez mais multiculturais e multirreligiosas, num mundo policêntrico e multipolar. Para evitar o "choque das civilizações", impõe-se o diálogo das culturas e das religiões - diálogo intercultural e inter-religioso. Esse diálogo tem dois pressupostos fundamentais: o respeito pela igual dignidade inviolável de cada ser humano e o respeito pelas diferenças.

Aliás, o diálogo não se impõe apenas como exigência para a paz. Ele é constitutivo do ser Homem, pois a identidade é atravessada e mediada pela alteridade. Sem "tu", não há "eu".

Mar adentro


Mar adentro, mar adentro,
y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños,
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.

Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno,
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo;
es como penetrar al centro del universo:

El abrazo más pueril,
y el más puro de los besos,
hasta vernos reducidos
en un único deseo:

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras:
más adentro, más adentro,
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.

Chico, de presente



"A gente era obrigado a ser feliz..."

Tajemniczy ogrod II

Yerka

24 de Junho de 2006

Sinto-me assim...


Valsa do amor de nós dois

Vem ver o mar
Vem que Copacabana é linda
Vamos ser só nós dois
E o que vai ser depois
É melhor, é melhor nem pensar

Ah, namorar ...
Os casais nem parecem saber
Nos seus beijos de amor
E o que resta depois
É a valsa do amor de nós dois

Pelas linhas sinuosas
Do passeio à beira-mar
Todo o Rio de Janeiro
Vai querer dançar

E nós, depois
Partiremos num beijo de luz
Pelo céu ao luar
A dançar, a dançar
Esta valsa do amor
De nós dois

Tom Jobim/Vinicius de Moraes

Li e gostei:

.) Poesia de Nuno Júdice - no A a Z
.) Silêncio e intolerância - n' A Terceira Noite
.) Caracteres móveis... - no Abencerragem
.) Não se pode morrer... - no Alcobacenseolariloléla
.) Cada vez mais convencido - no Anarca constipado
.) Relatividades - no Anestesista da alma
.) De volta - no Bem haja
.) O estatuto catalão - no Corta-Fitas
.) Nunca seremos espanhóis - no Corta-Fitas
.) Timoratices e timoralidades - no Dragoscópio
.) Poesia de autores lusófonos - no Forja de palavras
.) Enquanto isso, numa praia distante - Garfiar
.) Afeganistão - no Herdeiro de Aécio
.) Reprodução Medicamente Assistida e Abrir aspas - no Jirenna
.) O Mundial e a imagética simbólica - no Kontratempos
.) Comprar o futuro: domar o tempo, invisuais... - no Macroscópio
.) Tirar a lição - no Mais Actual
.) Irmão Europeu II no Malambas
.) Se o Prof. o diz... - no Maquiavel & J.B
.) Carta aberta aos senhores da UNESCO... - no Memórias Futuras
.) Crónicas da Lezíria XI - no Mesa do café
.) O Mar - no Porque
.) Osculos - no Portugal dos Pequeninos
.) A festa do sol - no Sobre o tempo que passa
.) Estupidez pura - no TomarPartido
.) A crise do gás quase a estalar (outra vez) - no Tugir
.) Por vezes apetecia-me... - no Turno da noite

Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade

L'uomo della luna

Noite de S. João

Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

Alberto Caeiro

23 de Junho de 2006

Un secret de rose...

Jacques Brel, Ne me quitte pas

[clicar na imagem]

Da crítica literária

Sem polémicas... sem diz que disse... sem aponta para o vazio. Mas a propósito de umas e de outras, aqui vai:

Em finais de Abril, princípios de Maio - andava eu a ler os blogs como costumo fazer -, entro n' A Invenção de Morel, cujo autor é um crítico literário do DN, e leio num post intitulado Correio umas palavras acerca de mim e do meu livro que, em bom português, me lixaram ao ponto de ter vontade de esbofetear o cretino que as escreveu. Não pela crítica inexistente, mas pelo acinte, a mentira e a estupidez do que dizia.

Como a criatura não estava à mão... nem a caixa de comentários os recebia... decidi-me a enviar um mail ao dito senhor crítico, mail esse que aqui reproduzo bem como a resposta que ele me enviou. E é nesta resposta que fica explícito, clara e transparentemente, como se elabora a crítica literária...

Leiamos:

I.

"Boa noite.

Só agora li no seu blog que se referia a mim. Mas tenho que esclarecer que não fui eu que lhe enviei o livro. Terá sido o meu editor e não eu! Não o conheço e não faço a mínima ideia de quem é, apesar disso não partiria de uma suposição para o referir.

É que ao referir-me daquele modo, só posso depreender que está a tentar menorizar-me sem me conhecer e está a incorrer numa inverdade.

Um crítico só poderá criticar depois de conhecer e se o meu livro lhe merece o desrespeito de o tratar daquele modo porque o referiu? Além do mais tenho apelido e não sou apenas uma Fátima qualquer! Tenho nome de mãe e pai e muito orgulho nele, é que foram eles que me ensinaram a não presumir nada e a não falar do que não conheço.

Cumprimentos,

Fátima Pinto Ferreira"

II.

"Cara Fátima,

Peço imensa desculpa pelos equívocos que o meu post possa ter causado. Apesar de compreender que se sinta ofendida, quero dizer-lhe que não houve intenção de atacá-la, até porque, como muito bem sublinha, não a conheço.
O post é apenas um desabafo de alguém que recebe toneladas de livros que não lhe interessam, enviados por editoras e autores que deviam saber, se acompanhassem o que vou escrevendo no jornal, quais são as obras sobre as quais escrevo e aquelas que inevitavelmente tenho que ignorar.
Admito que o tom do post não é simpático e disso me arrependo. A Fátima apanhou por tabela, o que é sempre desagradável. Quem me conhece sabe que sou ateu, por isso joguei ironicamente com o seu primeiro nome e com o título do romance. Quanto ao livro, li de facto apenas as primeiras páginas e isso não é suficiente para fazer um juízo.
Repito: se este post menos feliz a ofendeu, peço desculpa.
Com os melhores cumprimentos,

José Mário Silva"

Ridículo.

Absolutamente caricato que um crítico leia meia dúzia de linhas de um livro e que por ser ateu, por eu me chamar Fátima e o título do livro ser São Judas Iscariotes escreva o que escreveu. E se justifique da maneira pelintra como o fez, é de canalha.

Se ficar ofendido com isto, eu depois envio-lhe um mail a pedir desculpa!

:))))

Muttley's laugh...



Era uma vez, num Reino longínquo...

Amit era um alto funcionário da corte do Rei Akbar.

Há muito tempo que Amit nutria um amor inconfessável pela sua Rainha e sentia um desejo quase incontrolável de lhe tocar nos voluptuosos seios. Esta obsessão descontrolava-o completamente. De todas as vezes que tentou seduzir a Rainha, deu-se mal.

Até que, um dia, ele revelou o seu drama a Birbal, principal advogado da região, e pediu-lhe que o ajudasse a resolver o seu problema.

Birbal, depois de muito pensar, disse que ia estudar o assunto, sob a condição de Amit lhe pagar mil moedas de ouro. Amit aceitou o acordo que, todavia, não foi formalizado por escrito.

No dia seguinte, Birbal preparou um líquido que causava comichões e derramou-o no soutien da Rainha, enquanto esta tomava o seu banho perfumado de mil flores.

Quando ela o vestiu, logo a comichão começou e foi aumentando de intensidade, deixando o Rei preocupado e a Rainha desesperada.

A corte enviou embaixadas a médicos, naquelas e noutras paragens. Não se pouparam a esforços. Até que Birbal disse que conhecia um remédio secreto que curaria a maleita da Rainha. Bastaria apenas uma saliva especial que, aplicada por quatro horas consecutivas, curaria o mal. Birbal também disse que essa saliva só poderia ser encontrada na boca de Amit.

O Rei Akbar ficou muito feliz e chamou Amit que, durante as quatro horas seguintes, se deliciou a cumprir a missão que o Rei lhe entregara... e a realizar o seu ambicionado sonho.

Com o seu desejo plenamente concretizado e a sua líbido satisfeita, encontrou-se no dia seguinte com o advogado Birbal.

Amit recusou-se a pagar ao advogado, sabendo que, naturalmente, Birbal nunca poderia contar o facto ao Rei. Mas Amit subestimou o advogado.

No dia seguinte, Birbal colocou o mesmo líquido nas cuecas do Rei.

O Rei mandou imediatamente chamar Amit...

Moral da História :

Nunca, mas nunca mesmo, deixe de pagar ao seu advogado!!!!

Açores (para o Pedro) - II

Angra do Heroísmo

Açores (para o Pedro) - I

Ponta Delgada

Crónicas de Neverland



No barco do Capitão Gancho, "(...) Barrica e o Capitão Gancho - e outros corsários menores, mas não menos ávidos - rasteiram-se no Parlamento, abordam-se em Belém, insultam-se nos jornais, increpam-se nas televisões. Mas há dezenas de anos, por detrás deste cenário irascível, e no silêncio possível, dividem entre si o cada vez mais magro espólio dos sucessivos saques (...)".

A ler o restante texto. Imperdível.

Um blog assinado por Diogo Pacheco de Amorim.

Oui, c'est la folie

Sou de vidro


Fractal


Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita

Lídia Jorge

Evolucionismo

22 de Junho de 2006

Contributo para a historiografia do futebol

Dreamer


Why are my eyes always full of this vision of you
Why do I dream silly dreams that I fear won't come true
I long to show you the stars
Caught in the dark of the sea
I long to speak of my love but you don't come to me
So I go on asking if maybe one day you'll care
I tell my sad little dreams to the soft evening air
I am quite hopeless it seems, two things I know how to do
One is to dream
Two is loving you

Antonio Carlos Jobim/Gene Lees

Incomplete

Livros II

Recebi este mail ontem, proveniente das Edições Cosmos que reencaminhava a todos os seus autores o seguinte texto que reproduzo ipsis verbis:

INFORMAÇÃO

Feiras do Livro Lisboa e Porto

1. A Sodilivros vendeu menos 30,97% nas Feiras do Livro de Lisboa e Porto que em 2005.
O coeficiente de despesas directas (inscrições e alugueres) sobre vendas foi de 28,8%. Este valor não incluí transportes, preparação a nível de facturação e armazém, incluindo etiquetagem, ocupação de pessoas em horário laboral, levantamento, conferência e facturação, amortização e armazenamento dos stands.
Em resumo as feiras do livro de 2006, no Porto e Lisboa deram claramente como resultado prejuízo, sendo mais grave a situação do Porto.
A Sodilivros assume como é evidente todas as responsabilidades, por esta vez, com as inscrições, alugueres e compromissos com os trabalhadores na feira, internos ou externos.

2. Sabemos da perca competitiva das Feiras do Livro face a um conjunto de factores largamente referenciados. Também sabemos da situação económica do país. Mas uma quota parte significativa destes resultados (e infelizmente não são só nossos...) deve-se à incompetência de quem organiza as Feiras.

O dinheiro das inscrições mais os subsídios e patrocínios permitem fazer muito mais e melhor pela feira se aí fossem, mesmo que em parte, aplicados.

O que está em causa não é basicamente o modelo de feira, mas o sector não ter componente empresarial que permita varrer com as Associações existentes e erguer uma verdadeira estrutura representativa do livro, que seja motivo de orgulho e não de chacota. Virada para o mercado e não para tricas internas num modelo em que vale tudo para a manutenção do status-quo.

Felizmente e apesar de todos os obstáculos o livro em Portugal está mais vivo, mais moderno, mais competitivo do que as chamadas “Associações”.

Uma organização independente das Feiras do Livro seria mais barata e mais eficaz.

*********************

Pergunto: Vale a pena? Sendo assim, para que se continua com a agonia das Feiras do Livro nestes moldes? Falta de inteligência e vontade ou são meramente para épater le bourgeois e ficar com a consciência de dever (mal) cumprido?

Livros I

Fui convidada a participar ao final da tarde de ontem numa actividade - Festa do Livro e da Leitura - promovida pela Câmara Municipal do Cartaxo. Destina-se a motivar os mais pequenos à leitura e ao contacto com os livros. Do programa, só não compareceu o Avô Cantigas e o seu novo livro...

Até 2 de Julho, haverá uma história contada diariamente num espaço ao ar livre muito agradável, o jardim da Biblioteca Marcelino Mesquita. Havia crianças por todo o lado, sentadas no relvado à sombra de enormes cedros, e foi muito curioso observar as caritas atentas e a participação activa deles durante a leitura.

Pais, avós e crianças marcaram presença e demonstraram que iniciativas destas são bem recebidas e participadas. Assim haja vontade política dos municípios e inteligência dos autarcas.

What a wonderful world



Louis Armstrong himself e cenas de um dos meus filmes favoritos:
Good Morning, Vietnam.

A ler:

.) O Meu Lado Masoquista... - A Fábrica
.) Muitos marmanjos e marmanjas têm nota positiva - Anarca constipado
.) O que fica - Anestesista da alma
.) Mudam-se os tempos, repetem-se os sentimentos... - Arestália
.) Coisas do Baú - Bandeira ao vento
.) Canção - 125_azul
.) Esquecidos!???? - Citius, Altius, Fortius
.) A crise de Timor e a nova ordem mundial (I) e (II) - Corta-Fitas
.) Gorki foi assassinado? - Da Rússia
.) Toque a reunir (II) - Defender o Quadrado
.) A América em 1873, pelos olhos de Eça de Queirós - Dragoscópio
.) vários - Escrita em dia
.) O Francesismo - Esplanar
.) A propósito de «Última dádiva», de Trindade Coelho - Ferreira de Castro
.) Urbi et Orbe - Filhos de um deus menor
.) Aung San Suu Kyi - Humanic
.) Refugiados e A aventura da meia-idade - Jirenna
.) bonecas lindíssimas a ver no Linhas de arte
.) Jorge Luis Borges e Maldades de Borges - Macroscópio
.) O espelho e a realidade - Mais actual
.) Concordo com a Ministra da Educação - O Jumento
.) Mulher na praia - Ofício diário
.) Usura - Ortogal
.) Galafura - Porque
.) O dia mais longo - Portugal dos Pequeninos
.) Elsinore - Portugal dos Pequeninos
.) Dia Mundial do Refugiado - Pululu
.) Memórias, para ter saudades de futuro e colóquio no PS - Sobre o tempo que passa
.) Divertimento - TomarPartido
.) Os últimos momentos da clique de Monsieur Jacques - Tugir
.) E porque raio hei-de ser eu a ser chateado? - Vida de casado

Plenitude

21 de Junho de 2006

2 - 1

Já está! Mas, reconheçamos, o México jogou forte...

Portugal - xico

Que haja festa em português!

Três meses


O Cãocompulgas faz hoje três meses. Nasceu no equinócio da Primavera, sem saber nada de nada de blogs e de blogar (nem sabia como fazer um link ou inserir uma imagem...). Foi crescendo devagarinho, levou alguns beliscões, fez umas quantas tropelias, mas sobretudo sempre se sentiu e sente muito acarinhado. Obrigada!

Don't worry, be happy

Filhos, cadilhos e muitos sorrisos


Os meus filhos têm a capacidade de, às vezes, me fazerem sentir desejo de tirar umas férias deles. Há dias em que 500 km de permeio seria a distância ideal para uma coexistência pacífica. Certos dias canso-me de dizer "não". São quatro, três rapazes e uma menina. Exigentes, voluntariosos, mimados, alegres, ruidosos, ternos. Os meus filhos.

Apesar dos dias menos bons, são a razão mais forte da minha vida. Com eles, por eles e para eles vou refazendo os dias, aprendendo a respeitá-los, escutando-lhes a opinião e os anseios, engolindo o riso quando têm que ser repreendidos e abafando o choro quando um poema, uma cartinha ou uma flor surge das mãos deles com um mar de ternura espelhado nos olhos.

Todos vão passar de ano. Sabem que é o único compromisso inquebrável entre nós. Podem errar as vezes necessárias ao seu crescimento, podem tropeçar e eu lá estarei para os ajudar, podem hoje querer isto e amanhã já ser aquilo, podem e devem experimentar e saborear a vida. Mas não podem deixar de cumprir com o seu dever e este é o de ser bons alunos. O único que lhes exigo. Este rigor compreendem-no, sabem que a Escola não é um parque de recreio. Ensinei-os a olharem a Escola como o seu local de trabalho, que pode ser divertido trabalhar mas que o brio é uma condição.

Hoje estou evidentemente orgulhosa. Vaidosa mesmo, quem não estaria? A minha filha, que fez há pouco treze anos, passou para o 9º ano e tem umas notas óptimas. Sempre teve. Nunca precisei de lhe dizer para estudar ou para fazer os tpc. Quer ir para Belas Artes, a Pintura é a sua paixão. Desde pequenina sempre preferiu as caixas de tintas e os lápis de cor às bonecas; qualquer superfície servia para desenhar e tem um sentido estético invejável. Anda numa fase Transformacionista, qualquer objecto deixa de ser o que era e transmuda-se em algo belo. Os rapazes já não são bem assim. Têm dias. O mais velho prefere "devorar" tudo quanto é livro (sempre agarrado ao portátil e online com as amigas) e, depois, é que estuda. Os dois mais novos tendem a despachar tudo a correr para terem mais tempo para revirar o que lhes aparece pela frente e, muitas vezes, têm que refazer os trabalhos porque a mãe apaga tudo... Andam na fase do Teatro, declamam poesia, fazem convites para as suas estreias e encenam peças a partir de textos deles; as gatas e o cão participam quase em tudo "voluntariamente"...

Não é fácil ser mãe em circunstância alguma e quatro dão uma trabalheira imensa. Tarefa que não conseguiria cumprir sozinha não fosse a ajuda que a A. me dá todos os dias, arrumando e limpando tudo, olhando por eles e mimando-os (faço de conta que não vejo) quando os castigo. No entanto, a alegria, a ternura e os beijos e abraços de que sou gulosa são sempre a quadriplicar e só posso dizer que é bom ser mãe. Igualmente bom é sentir que não os vejo como bebés, que gosto desta sensação de estarem a crescer e de os ir olhando a cada dia como iguais a mim, independentes e a aprontarem-se para um dia abrirem asas e seguirem o seu caminho.

Não seria a mesma pessoa sem eles. Sou muito melhor hoje porque eles me ensinaram a sê-lo, com eles aprendo a viver, a rir, a partilhar, a abdicar, a enternecer-me, a amar. Os meus filhos é que são o meu solstício de Verão. Todos os dias.

Solstício de Verão

Bom dia!

20 de Junho de 2006

Lembrar ASsimetrias e refugiados


clicar na imagem p. favor

Blogosfera no feminino, do Islão com amor


Não será a bondade a recompensa da bondade?
Corão, 55,60

Vozes que, apesar da repressão, existem. Apesar da guerra, sobrevivem. Apesar da ocupação, resistem. Mulheres e raparigas que falam e que podemos escutar. Árabe no feminino.

Alguns blogs onde se pode descobrir todo um mundo, nem mau nem bom, apenas diferente.

. Irão

A journalist from Iran

I am an Iranian daughter

Iranian girl

My stories

The Land of persia

. Palestina

Musings of a Palestinian Princess

Raising Yousuf: a diary of a mother under occupation

. Jordânia

Body on the Line

. Iraque

An Iraqi tear

Baghdad Girl

Iraq - Riot Starter: The Girl Talk

. Arábia Saudita

A Thought in the Kingdom of Lunacy

Farah's Sowaleef

Saudi Eve

. Kuwait

Reflections of A Princess

E há muitos mais. Estes são apenas alguns poucos, a partir dos quais se pode encontrar os restantes. Para um outro olhar. Se até as garotas têm blog, será o Islão assim tão severo?

Para encontrar no Bahrain, Marrocos, Argélia, Egipto, Emiratos Árabes Unidos, Líbano, Síria, Iémen, visitar o Best of the Arab blogs. Estão lá.

Bolero


Qué vanidad imaginar
que puedo darte todo, el amor y la dicha,
itinerarios, música, juguetes.
Es cierto que es así:
todo lo mío te lo doy, es cierto,
pero todo lo mío no te basta
como a mí no me basta que me des
todo lo tuyo.

Por eso no seremos nunca
la pareja perfecta, la tarjeta postal,
si no somos capaces de aceptar
que sólo en la aritmética
el dos nace del uno más el uno.

Por ahí un papelito
que solamente dice:

Siempre fuiste mi espejo,
quiero decir que para verme tenía que mirarte.

Julio Cortázar

O respeitinho é muito bonito...

e eu gosto... :))) ... mas que preguiçaaa...

Encanto de mar

De la BarraBellido

19 de Junho de 2006

Da realidade

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Alberto Caeiro

O que é a realidade? Como saber o que é a realidade ou a verosimilhança, que é outra realidade? Perguntei ao meu filho mais novo, também ele um blogger :), o que é para ele a realidade. Franziu o nariz, olhou-me com um ar sério e respondeu: "a realidade é aquilo que eu vejo". Tem 9 anos e é um filósofo... ou um poeta...

Em traços grosseiros, a realidade será um conjunto de escolhas, que faremos a partir dos sentidos ponderando o que consideramos facto, acto, probabilidade e possibilidade. Contudo, a realidade não depende inteiramente das minhas escolhas, há uma realidade exterior a mim, sem contar com as outras todas realidades dos outros que não eu. Isto é como a pescadinha de rabo na boca, anda-se em círculos e não se chega a lado algum.

O que é a realidade?

"The first two photos are Iraqi female students in 1963-1964; the third photo is Iraqi female students in 2006!! In other words the Iraqi women before and after "liberation"…You can imagine the condition in Iraq through these photos. Iraq was the most developed and liberated country in the Middle East and among the Islam World although the Iraqis were devoted Moslems; yet they knew the real Islam not the Iranian imported Islam… I have no more comments.." - in An Iraqi tear

Neste blog, que de há muito cito e linko, a blogger The woman I was mostra-nos fotos de mulheres em 1963/64, ocidentalizadas digamos assim, e contrapõe com uma foto de raparigas veladas pela burka em 2006. Desabafando o seguinte, que traduzo, " por outras palavras, as mulheres Iraquianas antes e depois da libertação... Podem imaginar por estas fotos a condição no Iraque...". Destas palavras depreende-se claramente que a imposição da burka não foi senão consequência de uma célebre invasão libertadora de uma ditadura... Todavia, não nos podemos ficar só por esta descrição da realidade. É um pensamento manifestado. E só como tal deverá ser tido em conta.

Vejamos um outro blog feminino iraquiano e leiamos o seguinte, escrito dia 12 de Junho de 2006: "Saturday evening was a shopping day, but being intelligent as I am, I forgt to pack an extra pair of jeans while I've had all sorts of other clothes with me. So I decided to wear a jeans skirt and a pair of blue sandals that aren't the shopping kind, but I wore them anyway." - in
Riot Starter: The Girl Talk . Traduzindo, a autora, Riot Starter ou The Iraqi girl next door, diz que foi às compras e que vestiu uma saia de ganga e calçou umas sandálias que a magoaram, ilustrando esta informação com uma foto do seu próprio pé.

Pergunto: fala-se, ou não, de um mesmo Iraque? Será a única Verdade a da foto com as raparigas de burka? Ou este apelo não é uma manipulação da verdade com um objectivo político? Qual a intenção? Como é possível, assim, que estoutra não seja punida?!

Se lermos um outro blog iraquiano e masculino, o Iraq the model, verificaremos que na coluna de links estão alguns blogs femininos...! Bem como um ou outro mais, digamos, "apimentado" como o In Iraq, sex is like snow. Custa a acreditar que o fundamentalismo seja uma realidade, ou não custa?

Claro que se poderá falar do Afeganistão, do Irão, da Arábia Saudita, do Dubai e de muitos outros países cujas leis nos soam estranhas e onde os direitos e liberdades, não só os das mulheres mas os da maioria dos cidadãos, não são respeitados. Não são e vão continuar a não ser.

E porquê? Porque, e aqui deparamo-nos com uma outra realidade: enquanto dependermos do petróleo, entre outras dependências..., o status quo manter-se-á. Nenhum tirano abrirá mão. Tanta utopia, tanta ingenuidade... Por vezes, surpreendo-me com os defensores destas causas - porque esquecem, por exemplo, Angola? As mulheres até nem andam de burka... serão os seus direitos e liberdades amplos e adquiridos? Ou não terão direitos porque, pelo contrário, a sua tradição é a da mama ao léu? Enviem-se burkas e xadores...

Não será o Humanismo o respeito pela diferença? A compreensão do direito de cada sociedade se desenvolver ao seu ritmo e atravessando as suas dores, esplendores e misérias?

O que é então a realidade?!

Procurei conceitos de realidade entre diferentes autores, eis aqui alguns:

Epicteto, Manual - "(...) O que perturba os homens não são as coisas, e sim as opiniões que eles têm em relação às coisas. (...) Por conseguinte, quando estivermos embaraçados, perturbados ou penalizados, não o atribuamos a outrém, mas a nós próprios, isto é, às nossas próprias opiniões (...)"

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego - "(...)Damos comummente às nossas ideias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um sono por fora; se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes. (...) Manufacturamos realidades. A matéria-prima continua a ser a mesma, mas a forma, que a arte lhe deu, afasta-a efectivamente de continuar sendo a mesma. Uma mesa de pinho é pinho mas também é mesa. Sentamo-nos à mesa e não ao pinho. Um amor é um instinto sexual, porém não amamos com o instinto sexual, mas com a pressuposição de outro sentimento. E essa pressuposição é, com efeito, já outro sentimento (...)"

Vergílio Ferreira, Pensar - "(...) Viajar não é realizar o imaginário que nos excita antes da viagem mas sim exterminá-lo. O deslumbramento é do que se imagina e não do que realizou esse imaginar. (...) Tudo se solidifica na concretização do real, tudo se desvanece aí da sua figuração. A grande força do real é a do que está para lá dele, porque toda a realidade é redutora (...)"

Hannah Arendt, A Condição Humana - "(...) A nossa crença na realidade da vida e na realidade do mundo não são, com efeito, a mesma coisa. A segunda provém basicamente da permanência e da durabilidade do mundo, bem superiores às da vida mortal. (...) A confiança na realidade da vida, pelo contrário, depende quase exclusivamente da intensidade com que a vida é experimentada, do impacte com que ela se faz sentir. Esta intensidade é tão grande e a sua força é tão elementar que, onde quer que prevaleça, na alegria ou na dor, oblitera qualquer outra realidade mundana (...)"

Ferreira de Castro, A Curva da Estrada - "(...) Qualquer coisa sempre me disse que não levarias até o fim a atitude que, em certo momento, tomaste, pois parecia-me quase inverosímil não veres que o essencial é alargar cada vez mais o horizonte humano e não fechá-lo. Nós, os que conhecemos o drama da nossa espécie, devemos amar os homens pelas suas próprias dores e esforçarmo-nos para a criação dum mundo onde, suprimidas as injustiças que os separam, todos os homens se possam amar uns aos outros. Para isso é preciso ir cada vez mais longe... (...)"

O que é, então, a realidade? Será ir mais longe, sabendo que a realidade da vida e a realidade do mundo não são a mesma coisa, porque toda a realidade do mundo é redutora. Manufacturando realidades e percebendo as diferentes opiniões.

Como aqui já tinha dito, "qual operário, prefiro agarrar na escada ao ombro e trepar para dentro dos espelhos ou das janelas da realidade e observá-la de lá para cá, vestindo a pele dos outros, evitando cair na estulta comodidade de querer ser diferente não fazendo nada de novo. Como Régio, "eu vivo com o mesmo sem-vontade / Com que rasguei o ventre à minha mãe" e busco o caminho do homem novo, aquele que rasgará o fato e a gravata e que avançará para dizer às nações que a verdade existe e que é uma apenas: lutar por uma humanidade melhor em que a ordem estabelecida por séculos de catolicismo, de islamismo, de taoismo, de cinismo, de burguesismo fascinado e de pragmatismo antropofágico acabou. O virtuosismo, o profissionalismo, a qualidade, a capacidade organizativa e a determinação não se medem por padrões estereotipados, mas pelo resultado prático e ético que melhorará as sociedades no reconhecimento de que é na diversidade que residirá a unidade harmónica que distinguirá o Homem dos restantes animais."

Esta é a realidade que procuro, esta a realidade que tento construir, esta a realidade em que acredito. Esta a não-realidade que no real insisto.

Chico Buarque de Hollanda faz hoje 62 anos


[clicar na imagem]
Abril despedaçado

Uns límpidos e profundíssimos olhos cor do oceano que um dia conheci em Lisboa, na casa de uma prima dele e namorada, na altura, de um dos meus irmãos. Nada complicado, afável e com o à-vontade dos homens brilhantes. Foi uma tarde inesquecível, de fascínio. Com outro Abril e Tanto Mar na voz, há quase trinta anos.


Uma Palavra

Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra

Palavra dócil
Palavra d'água pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Talvez, à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra

Chico Buarque

O espírito da vida

18 de Junho de 2006

Swing Betty Boop's memories






Engraçados. Memórias de uma televisão a preto e branco.

A ler, à flor da pele:

.) Espera - no Abencerragem

.) Férias - no Corta-fitas

.) Às vezes - no Defender o quadrado

.) Dor - na Escola de lavores

.) Metamorfose - no Instante

.) A prova de vida de Kalandula - no Malambas

.) Instantâneo café - no Nu singular

.) O meu corpo que não foi meu - n' O mundo perfeito

.) Na margem - no Ofício diário

.) What are you doing the rest of your life? - no Porto Croft

Leonard Cohen

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

Cores para um domingo incolor

Kandinski

17 de Junho de 2006

Câmbio

o mar
não tem margem

você está
sem passagem
em alguma parte dele
tentando ir para
outra parte

e se chegar lá
talvez siga viagem
ao ver o mar
à deriva passar

Ronald Polito

2 - 0

Os homens da festa. Adorei.

Portugal - Irão

em directo, no RCP Online ou num televisor perto de si

Dêem-nos um bom jogo, muita emoção, muito "joga bonito", muitos golos, se faz favor.

As "pulgas" azuis e brancas querem pular, saltar e gritar GOOOOLO, GOOOOLO, GOOOOLO e PORTUGAL várias vezes. Hoje o "Cão" está "tuguinha e muitaúligane"... a torcer por Pauleta(das)

:)))))))

Fundamentalismos


Sinceramente, nada tenho contra as burkas. Se a mulher, por opção própria, quiser usá-las (e algumas são lindíssimas...), ou o xador, ou cobrir a cabeça com um lenço, não entendo que isso tenha o que quer que seja de limitador da sua condição. Atente-se: eu disse por opção própria!

Quantas vezes não tenho pensado em como a burka seria libertadora... A mulher em sociedade avaliada apenas pelo que vale como cidadã e pelo pensamento expresso pela sua inteligência... Ser uma voz e não um corpo, quando corpo nada tem a ver com voz...

Mesmo como elemento de sedução feminina, a burka permitiria todo um efeito... a sedução que se perdeu com a exposição das igualdades - quais??? O homem continua todo tapado... enfiado em fatos e gravatas, dele só se vêem as mãos e a cabeça e isso seduz... adivinhar o que não se vê... A mulher, hoje, bem pelo contrário, de tanto se revelar adquiriu quase um estatuto de "carne para canhão", o esforço para ser diferente é muito maior muito embora a criatividade fique, para algumas, restringida às modas. E a mulher "libertada" ficou presa da sua libertação... como um Prometeu agrilhoado...

É evidente que o uso da burka por obrigação, como qualquer imposição totalitária que restrinja as opções do indivíduo nas suas liberdades pessoais, é uma indignidade. Mas é tão fundamentalista defender que as mulheres a não devem usar porque não concordamos como serem obrigadas a fazê-lo.

Nós vivemos também os nossos fundamentalismos. Ou somos perfeitamente livres?

Esquecemos as nossas chagas, apontando o dedo ao outro.

O machismo, o racismo, a homofobia, a violência doméstica, a violência social, a iletracia, o alcoolismo e as várias adicções, o desrespeito pela infância e pelos idosos, os crimes ecológicos, o elitismo bacoco e vão, o "amiguismo", o economicismo antropofágico e tantos outros males do nosso tempo que mais são do que os nossos fundamentalismos? Olhar para o lado é muito mais reconfortante que olhar para nós.

Não somos fundamentalistas? Não seremos já fundamentalistas religiosos... (não seremos?!)... mas somo-lo num novo credo, o da Economia. Que eu saiba, latu sensu, fundamentalismo é o nome dado a movimentos cujos adeptos mantêm estrita aderência aos princípios fundamentais...

Não somos fundamentalistas? Não?!

Eu acho que somos. E, como tal, defendo que deveríamos deixar o xador e a burka a quem é de xador e burka e preocuparmo-nos em não atirarmos pedras ao telhado do vizinho, quando temos tanta telha de vidro... - se, ainda por cima, o vizinho tiver maus fígados e lhe der para disparar faúlhas (eufemismo tão engraçado...) a torto e a direito... Mas, ele ainda não o fez... Não será cão que ladra mas não morde?! Demos-lhe menos atenção, façamos como aos miúdos mimados, ignoremo-lo vigiando-o... talvez resulte -, recordando que não é Tuga quem não tem uma avó vestida de preto e/ou de lenço na cabeça... Eu não tenho. Mas há aí muito boa gente que tem!... Ou não?

Zazdrosc

16 de Junho de 2006

O sentido das tempestades



"(...)Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti.

(...) Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.

(...) E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros.
E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido (...)"

Haruki Murakami, in Kafka à Beira-Mar


"(...) É como viver sem medo porque o tempo não existe verdadeiramente. E, na realidade, o tempo não é nada. É uma criação humana.

(…) Os cataclismos mais não são do que a Natureza a assinalar que está saturada, invadida, e, quando assim é, ela expurga-se , elimina os mais fracos e deixa os sobreviventes aprender de novo, desbravar uma nova vida, indiferente às dores , às perdas e aos desgostos de cada um. Quem a respeita? O respeito tem de ser recíproco. Como exigir o que não se dá? Quem pode pedir a devolução do que não entregou?

(...) A linguagem humana é sempre simbólica e, porque não há acasos, tudo tem razão de ser e todas as acções despoletam reacções. Se soubermos observar, veremos o futuro, porque ele já começou ontem, há bocado, um minuto antes..."

Fátima Pinto Ferreira, in São Judas Iscariotes

Raining cats and dogs


Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.

Ambos existem; cada um como é.

Alberto Caeiro

Inteligência

Ler os outros:

.) Assobio - n' A cidade vaga

.) O regresso - n' A fábrica

.) A dúvida - n' A memória inventada

.) Espera - no Abencerragem

.) Necessidade ou ambição? - no Bloguítica

.) Homenagem à vida (crónica) - no Corta-Fitas

.) Trabalho - no Dicionário Ilustrado

.) Como "Eles" treinaram a Al-Qaeda - no Dragoscópio

.) Notas soltas (1) - na Escola de lavores

.) vários - no Escrita em dia

.) Dia de quê? e Última hora - no French Kissin'

.) Enquadramento do romance - no Globália

.) De uma Europa a outra Europa - no Herdeiro de Aécio

.) Conflito de gerações e Meia noite menos - no Inconfidências

.) vários - no Macroscópio

.) Uma estrada para um Vinhais desertificado... - no Malambas

.) vários - no Manchas

.) "Pieguices" e outras homenagens... - no Memórias Futuras

.) Uma vida diferente I e II - no Nada te turbe

.) tudo - n' O Jumento

.) Os párias - n' O mundo perfeito

.) muita poesia do autor - no Ofício diário

.) Jackpot literário fica na Irlanda - no Porque

.) The Master - no Portugal dos Pequeninos

.) Mueda, foi há 46 anos - no Pululu

.) Campeonato do Mundo de Futebol - no RCP Online

.) Ser professor e Contraste - no TomarPartido

David Mourão-Ferreira



Blocos

É isto vivemos dentro

de grandes blocos de gelo

sem aquecermos ao menos

com os dedos outros dedos

No fundo de nós temendo

que um dia se quebre o gelo

Bloomsday

James Joyce, Ulisses

Um dia na vida da Humanidade.

Se fosse possível prender o tempo ou capturar o Infinito, poder-se-ia dizer que James Joyce o conseguiu com este livro.

Um dia comum - 16 de Junho de 1904 - na vida de pessoas comuns - irlandeses, como ele - numa cidade comum, Dublin.

Só o romance é incomum.

Quando foi publicado, em 1922, por uma pequena editora de Paris, a Shakespeare and Co., os críticos mais atentos disseram que aquele era ''um romance para acabar com todos os romances''. Sugeriam, assim, que nenhum roman-cista lúcido, após aquele romance, poderia contentar-se em narrar histórias com princípio, meio e fim.

Joyce, desconhecendo Freud, devastou os subterrâneos do inconsciente; antes mesmo do cinema, criou novas técnicas revolucionárias para a narrativa; e, sem ser um filósofo, abriu perspectivas para a compreensão da História como um círculo sem começo nem fim.

Para quem não leu, é um livro a levar para férias.

Touch me...

[clicar na imagem]

Chico Buarque. Bom de ouvir...

15 de Junho de 2006

Labirinto


Por onde? Para onde?

Descontextualizada, esta fotografia com o comentário aposto significa não a minha intenção ou o meu pensamento ao colocá-la, mas a leitura que os outros dela fazem. As duas interrogações nada contribuem para a leitura da imagem ou a percepção do sentido com que foi publicada. Apenas a precipitação de leitura ou o preconceito subjacente do leitor à temática do labirinto lhe atribuem uma semântica.

Como qualquer mensagem, a sua compreensão depende primeiramente de que o emissor e o/s receptor/es detenham a mesma chave de decifração do código utilizado, que estejam num mesmo contexto de comunicação e, neste caso isso comprova-se, conheçam o referente em causa.

Interessante foi verificar os mails preocupados com o meu bem-estar, sobretudo afectivo, nas horas durante as quais a foto esteve sem este texto. Foi muitíssimo interessante mesmo. Ninguém pensou que poderia ser aquilo que foi... apenas o desejo de colocar a foto e ver as reacções. Ninguém interpretou o post como uma indagação literária ou filosófica, apenas leram nele uma angústia súbita ou um qualquer desnorteamento.

Porque não perceberam a fotografia como um ensejo de adivinhar um enigma simplesmente? Ou como um jogo em desenvolvimento, uma charada de que nem todos participam ou poderão participar?

Labirinto(s)...

Bora amalucar... e remexer nos LP's...


Quem não se lembra das discotecas cheias de bolas de sabão e um cheiro impossível a detergente de maçã no ar?

Hortenses

não resisti, confesso, e "fui buscá-las"... são lindas!

Às vezes... Caetano



"Onde está você agora?... essa música é muito bonitinha..."

Almada Negreiros

7-4-1893 / 15-6-1970

Quis-te tanto que gostei de mim!
Tu eras a que não serás sem mim!
Vivias de eu viver em ti
e mataste a vida que te dei
por não seres como eu te queria.
Eu vivia em ti o que em ti eu via.
E aquela que não será sem mim
tu viste-a como eu
e talvez para ti também
a única mulher que eu vi!

Almada Negreiros

******************

Mas é este o meu poema preferido de Almada Negreiros:

Cena do Ódio

Ergo-Me Pederasta apupado d'imbecis,
Divinizo-Me Meretriz, ex-líbris do Pecado,
e odeio tudo o que não Me é por Me rirem o Eu!
Satanizo-Me Tara na Vara de Moisés!
O castigo das serpentes é-Me riso nos dentes,
Inferno a arder o Meu Cantar!
Sou Vermêlho-Niagara dos sexos escancarados nos chicotes
dos cossácos!
Sou Pan-Demónio-Trifauce enfermiço de Gula!
Sou Génio de Zaratrusta em Taças de Maré-Alta!
Sou Raiva de Medusa e Danação do Sol!
Ladram-Me a Vida por vivê-La
e só Me deram Uma!
Hão-de lati-La por sina!
Agora quero vivê-La!
Hei-de Poeta cantá-La em Gala sonora e dina
Hei-de Glória desanuviá-La!
Hei-de Guindaste içá-La Esfinge
da Vala pedestre onde Me querem rir!
Hei-de trovão-clarim levá-La Luz
às Almas-Noites do Jardim das Lágrimas!
Hei-de bombo rufá-La pompa de Pompeia
nos Funerais de Mim!
Hei-de Alfange-Mahoma
cantar Sodoma na Voz de Nero!
Hei-de ser Fuas sem Virgem do Milagre,
hei-de ser galope opiado e doido, opiado e doido...
Hei-d' Átila, hei-de Nero, hei-de Eu,
cantar Atila, cantar Nero, cantar Eu!
Sou Narciso do Meu Ódio!
- O Meu ódio é Lanterna de Diógenes,
é cegueira de Diógenes,
é cegueira da Lanterna!
(O Meu Ódio tem tronos d' Herodes,
histerismos de Cleópatra, perversões de Catarina!)
O Meu ódio é Dilúvio Universal sem Arcas de Noé, só
Dilúvio Universal!
e mais Universal ainda:
Sempre a crescer, sempre a subir...
até apagar o Sol!
Sou trono de Abandono, mal-fadado,
nas iras dos Bárbaros meus Avós.
Oiço ainda da Berlinda d'Eu ser sina
gemidos vencidos de fracos,
ruídos famintos de saque,
ais distantes de Maldição eterna em Voz antiga!
Sou ruínas rasas, inocentes
como as asas de rapinas afogadas.
Sou relíquias de mártires impotentes
sequestradas em antros do Vício.
Sou clausura de Santa professa,
Mãe exilada do Mal, Hóstia d'Angústia no Claustro,
freira demente e donzela,
virtude sozinha da cela
em penitência do sexo!
Sou rasto espezinhado d'Invasores
que cruzaram o meu sangue, desvirgando-o.
Sou a Raiva atávica dos Távoras,
o sangue bastardo de Nero,
o ódio do último instante
do Condenado inocente!
A podenga do Limbo mordeu raivosa
as pernas nuas da minh'Alma sem baptismo...
Ah! que eu sinto, claramente,
que nasci de uma praga de ciúmes!
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo e a Alma dos Bórgias a
penar!
Tu, que te dizes Homem!
Tu, que te alfaiatas em modas
e fazes cartazes dos fatos que vestes
p'ra que se não vejam as nódoas de baixo!
Tu, qu'inventaste as Ciências e as Filosofias,
as Políticas, as Artes e as Leis,
e outros quebra-cabeças de sala
e outros dramas de grande espectáculo
Tu, que aperfeiçoas sabiamente a arte de matar.
Tu, que descobriste o cabo da Boa-Esperança
e o Caminho Marítimo da índia
e as duas Grandes Américas,
e que levaste a chatice a estas Terras
e que trouxeste de lá mais gente p'raqui
e qu'inda por cima cantaste estes Feitos...
Tu, qu'inventaste a chatice e o balão,
e que farto de te chateares no chão
te foste chatear no ar,
e qu'inda foste inventar submarinos
p'ra te chateares também por debaixo d'água,
Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas
e que nunca descobriste que eras bruto,
e que nunca inventaste a maneira de o não seres
Tu consegues ser cada vez mais besta
e a este progresso chamas Civilização!
Vai vivendo a bestialidade na Noite dos meus olhos,
vai inchando a tua ambição-toiro
'té que a barriga te rebente rã.
Serei Vitória um dia -Hegemonia de Mim!
e tu nem derrota, nem morto, nem nada.
O Século-dos-Séculos virá um dia
e a burguesia será escravatura
se for capaz de sair de Cavalgadura!
Hei-de, entretanto, gastar a garganta
a insultar-te, ó besta!
Hei-de morder-te a ponta do rabo
e por-te as mãos no chão, no seu lugar!
Ahi! Saltimbanco-bando de bandoleiros nefastos!
Quadrilheiros contrabandistas da Imbecilidade!
Ahi! Espelho-aleijão do Sentimento,
macaco-intruja do Alma-realejo!
Ahi! macrelle da Ignorância!
Silenceur do Génio-Tempestade!
Spleen da Indigestão!
Ahi! meia-tigela, travão das Ascensões!
Ahi! povo judeu dos Cristos mais que Cristo!
Ó burguesia! Ó ideal com i pequeno
Ó ideal ricócó dos Mendes e Possidonios
Ó cofre d'indigentes
Cuja personalidade é a moral de todos!
Ó geral da mediocridade!
Ó claque ignóbil do Vulgar, protagonista do normal!
Ó Catitismo das lindezas d'estalo!
Ahi! lucro do fácil,
cartilha-cabotina dos limitados, dos restringidos!
Ai! dique-impecilho do Canal da Luz!
Ó coito d'impotentes
a corar ao sol no riacho da Estupidez!
Ahi! Zero-barómetro da Convicção!
bitola dos chega, dos basta, dos não quero mais!
Ahi! Plebeísmo Aristocratizado no preço do panamá!
erudição de calça de xadrez!
competência de relógio d'oiro
e correntes com suores do Brasil,
e berloques de cornos de búfalo!
E eu vivo aqui desterrado e Job
da Vida-gémea d'Eu ser feliz!
E eu vivo aqui sepultado vivo
na Verdade de nunca ser Eu!
Sou apenas o Mendigo de Mim-Próprio,
órfão da Virgem do meu sentir.
E como queres que eu faça fortuna
se Deus, por escárnio, me deu Inteligência,
e não tenho sequer, irmãs bonitas
nem uma mãe que se venda para mim?
(Pesam quilos no Meu querer
as salas de espera de Mim.
Tu chegas sempre primeiro...
Eu volto sempre amanhã...
Agora vou esperar que morras.
Mas tu és tantos que não morres...
Vou deixar d'esp'rar que morras
- Vou deixar d'esp'rar por mim!)
Ah! que eu sinto, claramente, que nasci
de uma praga de ciúmes!
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo
e a alma dos Bórgias a penar!
E tu, também, vieille-roche, castelo medieval
fechado por dentro das tuas ruínas!
Fiel epitáfio das crónicas aduladoras!
E tu também ó sangue azul antigo
que já nasceste co'a biografia feita!
Ó pajem loiro das cortesias-avozinhas!
Ó pergaminho amarelo-múmia
das grandes galas brancas das paradas
e das Vitórias dos torneios-lotarias
com donzelas-glórias!
Ó resto de ceptros, fumo de cinzas!
Ó lavas frias do Vulcão pirotécnico
com chuvas d'oiros e cabeleiras prateadas!
Ó estilhacos heráldicos de Vitrais
despegados lentamente sobre o tanque do silêncio!
Ó Cedro secular
debruçado no muro da Quinta sobre a estrada
a estorvar o caminho da Mala-posta!
E vós também, ó Gentes de Pensamento,
ó Personalidades, ó Homens!
Artistas de todas as partes, cristãos sem pátria,
Cristos vencidos por serem só Um!
E vós, ó Génios da Expressão,
e vós também, ó Génios sem Voz!
ó além-infinito sem regressos, sem nostalgias,
Espectadores gratuitos do Drama-Imenso de Vós-Mesmos!
Profetas clandestinos
do Naufrágio de Vossos Destinos!
E vós também, teóricos-irmãos-gémeos
do meu sentir internacional!
Ó escravos da Independência!
Vós que não tendes prémios
por se ter passado a vez de os ganhardes,
e famintos e covardes
entreteis a fome em revoltas do Mau-Génio
no boémia da bomba e da pólvora!
E tu também, ó Beleza Canalha
Co'a sensibilidade manchada de vinho!
Ó lírio bravo da Floresta-Ardida
à meia-porta da tua Miséria!
Ó Fado da Má-Sina
com ilustrações a giz
e letra da Maldição!
Ó fera vadia das vielas açaimada na Lei!
Ó xale e lenço a resguardar a tísica!
Ó franzinas do fanico
co'a sífilis ao colo por essas esquinas!
Ó nu d'aluguer
na meia-luz dos cortinados corridos!
Ó oratório da meretriz a mendigar gorjetas
p'rá sua Senhora da Boa-Sorte!
Ó gentes tatuadas do calão!
carro vendado da Penitenciária!
E tu também, ó Humilde, ó Simples!
enjaulados na vossa ignorância!
Ó pé descalço a calejar o cérebro!
Ó músculos da saúde de ter fechada a casa de pensar!
Ó alguidar de açorda fria
na ceia-fadiga da dor-candeia!
Ó esteiras duras pra dormir e fazer filhos!
Ó carretas da Voz do Operário
com gente de preto a pé e filarmónica atrás!
Ó campas rasas, engrinaldadas,
com chapões de ferro e balões de vidro!
Ó bota rota de mendigo abandonada no pó do caminho!
Ó metamorfose-selvagem das feras da cidade!
Ó geração de bons ladrões crucificados na Estupidez!
Ó sanfona-saloia do fandango dos campinos!
Ó pampilho das Lezírias inundadas de Cidade!
ó trouxa d'aba larga da minha lavadeira,
Ó rodopio azul da saia azul de Loures!
E vós varinas que sabeis a sal
as Naus da Fenícia ainda não voltaram?!
E vós também, ó moças da Província
que trazeis o verde dos campos
no vermelho das faces pintadas!
E tu também, ó mau gosto
co'a saia de baixo a ver-se
e a falta d'educação!
Ó oiro de pechisbeque (esperteza dos ciganos)
a luzir no vermelho verdadeiro da blusa de chita!
Ó tédio do domingo com botas novas
e música n'Avenida!
Ó santa Virgindade
a garantir a falta de lindeza!
Ó bilhete postal ilustrado
com aparições de beijos ao lado!
E vós ó gentes que tendes patrões,
autómatos do dono a funcionar barato!
Ó criadas novas chegadas de fora p'ra todo o serviço!
Ó costureiras mirradas,
emaranhadas na vossa dor!
Ó reles caixeiros, pederastas do balcão,
a quem o patrão exige modos lisonjeiros
e maneiras agradáveis pròs fregueses!
Ó Arsenal fadista de ganga azul e coco socialista!
Ó saídas pôr-do-sol das Fábricas d'Agonia!
E vós também, ó toda a gente, que todos tendes patrões!
E vós também, nojentos da Política
que explorais eleitos o Patriotismo!
Macrots da Pátria que vos pariu ingénuos
e vos amortalha infames!
E vós também, pindéricos jornalistas
que fazeis cócegas e outras coisas
à opinião pública!
E tu também roberto fardado:
Futrica-te espantalho engalonado,
apoia-te das patas de barro,
Larga a espada de matar
e põe o penacho no rabo!
Ralha-te mercenário, asceta da Crueldade!
Espuma-te no chumbo da tua Valentia!
Agoniza-te Rilhafoles armado!
Desuniversidadiza-te da doutorança da chacina,
da ciencia da matança!
Groom fardado da Negra,
pária da Velha!
Encaveira-te nas esporas luzidias de seres fera!
Despe-te da farda,
desenfia-te da Impostura, e põe-te nu, ao léu
que ficas desempregado!
Acouraça-te de senso,
vomita de vez o morticínio,
enche o pote de raciocínio,
aprende a ler corações,
que há muito mais que fazer
do que fazer revoluções!
Ruína com tuas próprias peças-colossos
as tuas próprias peças colossais,
que de 42 a 1 é meio-caminho andado!
Rebusca no seres selvagem
no teu cofre do extermínio
o teu calibre máximo!
Põe de parte a guilhotina,
dá férias ao garrote!
Não dês língua aos teus canhões,
nem ecos às pistolas,
nem vozes às espingardas!
– São coisas fora de moda!
Põe-te a fazer uma bomba
que seja uma bomba tamanha
que tenha dez raios da Terra.
Põe-lhe dentro a Europa inteira,
os dois pólos e as Américas,
a Palestina, a Grécia, o mapa
e, por favor, Portugal!
Acaba de vez com este planeta,
faze-te Deus do Mundo em dar-lhe fim!
(Há tanta coisa que fazer, Meu Deus!
e esta gente distraída em guerras!)
Eu creio na transmigração das almas
por isto de Eu viver aqui em Portugal.
Mas eu não me lembro o mal que fiz
durante o Meu avatar de burguês.
Oh! Se eu soubesse que o Inferno
não era como os padres mo diziam:
uma fornalha de nunca se morrer...
mas sim um Jardim da Europa
à beira-mar plantado...
Eu teria tido certamente mais juízo,
teria sido até o mártir São Sebastião!
E inda há quem faça propaganda disto:
a pátria onde Camões morreu de fome
e onde todos enchem a barriga de Camões!
Se ao menos isto tudo se passasse
numa Terra de mulheres bonitas!
Mas as mulheres portuguesas
são a minha impotência!
E tu, meu rotundo e pançudo-sanguessugo,
meu desacreditado burguês apinocado
da rua dos bacalhoeiros do meu ódio
co'a Felicidade em casa a servir aos dias!
Tu tens em teu favor a glória fácil
igual à de outros tantos teus pedaços
que andam desajuntados neste Mundo,
desde a invenção do mau cheiro,
a estorvar o asseio geral.
Quanto mais penso em ti, mais tenho Fé e creio
que Deus perdeu de vista o Adão de barro
e com pena fez outro de bosta de boi
por lhe faltar o barro e a inspiração!
E enquanto este Adão dormia
os ratos roeram-lhe os miolos,
e das caganitas nasceu a Eva burguesa!
Tu arreganhas os dentes quando te falam d'Orpheu
e pões-te a rir, como os pretos, sem saber porquê.
E chamas-me doido a Mim
que sei e sinto o que Eu escrevi!
Tu que dizes que não percebes;
rir-te-has de não perceberes?
Olha Hugo! Olha Zola, Cervantes e Camões,
e outros que não são nada por te cantarem a ti!
Olha Nietzche! Wilde! Olha Rimbaub e Dowson!
Cesário, Antero e outros tantos mundos!
Beethoven, Wagner e outros tantos génios
que não fizeram nada,
que deixaram este mundo tal qual!
Olha os grandes o que são estragados por ti!
O teu máximo é ser besta e ter bigodes.
A questão é estar instalado.
Se te livras de burguês e sobes a talento, a génio,
a seres alguém,
o Bem que tu fizeres é um décimo de seres fera!
E de que serve o livro e a ciência
se a experiência da vida
é que faz compreender a ciência e o livro?
Antes não ter ciências!
Antes não ter livros!
Antes não ter Vida!
Eu queria cuspir-te a cara e os bigodes,
quando te vejo apalermado p'las esquinas
a dizeres piadas às meninas,
e a gostares das mulheres que não prestam
e a fazer-lhes a corte
e a apalpar-lhes o rabo,
esse tão cantado belo cu
que creio ser melhor o teu ideal
que a própria mulher do cu grande!
E casaste-te com Ela,
porque o teu ideal veio pegado a Ela,
e agora à brocha limpas a calva em pinga
à coca de cunhas p'ró Cunha examinador
do teu décimo nono filho
dezanove vezes parvo!
(É o caso mais exemplar de Constância e fidelidade
a tua história sexual co'a Felisberta,
desde o teu primogénito tanso
'té ao décimo nono idiota.)
'Té no matrimónio te maldigo, infame cobridor!
Espécie de verme das lamas dos pântanos
que de tanto se encharcar em gozos
o seu corpo se atrofiou
e o sexo elefantizado foi todo o seu corpo!
Em toda a parte tu és o admirador
e em toda a parte a tua ignorância
tem a cumplicidade da incompetência
dos que te falam 'té dos lugares sagrados.
Sim! Eu sei que tu és juiz
e qu'inda ontem prometeste a tua amante,
despedindo-a num beijo de impotente,
a condenação dos réus que tivesses
se Ela faltasse à matinée da Boa-Hora!
Pulha! E és tu que do púlpito
d'essa barriga d'Água da Curia
dás a ensinança de trote
aos teus dezanove filhos?!
Cocheiros, contai: dezanove!!!
Zute! bruto-parvo-nada
que Me roubaste tudo:
'té Me roubaste a Vida
e não Me deixaste nada!
nem Me deixaste a Morte!
Zute! poeira-pingo-micróbio
que gemes pequeníssimos gemidos gigantes
grávido de uma dor profeta colossal.
Zute! elefante-berloque parasita do não presta!
Zute! bugiganga-celulóide-bagatela!
Zute, besta!
Zute, bácoro!!
Zute, merda!!!
Em toda a parte o teu papel é admirar,
mas (caso inf'eliz)
nunca acertas numa admiração feliz.
Lês os jornais e admiras tudo do princípio ao fim
e se por desgraça vem um dia sem jornais,
tens de ficar em casa nos chinelos
porque nesse dia, felizmente,
não tens opinião pra levares à rua.
Mas nos outros dias lá estás a discutir.
É que a Natureza é compensadora:
quem não tem dinheiro p'ra ir ao Coliseu
deve ter cá fora razões p'ra se rir.
Só te oiço dizer dos outros
a inveja de seres como eles.
Nem ao menos, pobre fadista,
a veleidade de seres mais bruto?
Até os teus desejos são avaros
como as tuas unhas sujas e ratadas.
Ó meu gordo pelintrão,
água-morna suja, broa do outro v'rao!
Os homens são na proporção dos seus desejos
e é por isso que eu tenho a Concepção do Infinito...
Não te cora ser grande o teu avô
e tu apenas o seu neto, e tu apenas o seu esperma?
Não te dói Adão mais que tu?
Não te envergonha o teres antes de ti
outros muito maiores que tu?
Jamais eu quereria vir a ser um dia
o que o maior de todos já o tivesse sido
eu quero sempre muito mais
e mais ainda muito pr'além-demais-Infinito...
Tu não sabes, meu bruto, que nós vivemos tão pouco
que ficamos sempre a meio-caminho do Desejo?
Em toda a parte o bicho se propaga,
em toda a parte o nada tem estalagem.
O meu suplício não é somente de seres meu patrício
ou o de ver-te meu semelhante,
tu, mesmo estrangeiro, és besta bastante.
Foi assim que te encontrei na Rússia
como vegetas aqui e por toda a parte,
e em todos os ofícios e em todas as idades.
Lá suportei-te muito! Lá falavas russo
e eu só sabia o francês.
Mas na França, em Paris - a grande capital,
apesar de fortificada,
foi assolada por esta espécie animal.
E andam p'los cafés como as pessoas
e vestem-se na moda como elas,
e de tal maneira domésticos
que até vão às mulheres
e até vão aos domésticos.
Felizmente que na minha pátria,
a minha verdadeira mãe, a minha santa Irlanda,
apenas vivi uns anos d'Infância,
apenas me acodem longinquamente
as festas ensuoradas do priest da minha aldeia,
apenas ressuscitam sumidamente
as asfixias da tísica-mater,
apenas soam como revoltas
as pistolas do suicídio de meu pai,
apenas sinto infantilmente
no leito de uma morta
o gelo de umas unhas verdes,
um frio que não é do Norte,
um beijo grande como a vida de um tísico a morrer.
Ó Deus! Tu que m'os levaste é que sabias
o ódio que eu lhes teria
se não tivessem ficado por ali!
Mas antes, mil vezes antes, aturar os burgueses da My
Ireland
que estes desta Terra
que parece a pátria deles!
Ó Horror! Os burgueses de Portugal
têm de pior que os outros
o serem portugueses!
A Terra vive desde que um dia
deixou de ser bola do ar
p'ra ser solar de burgueses.
Houve homens de talento, génios e imperadores.
Precisaram-se de ditadores,
que foram sempre os maiores.
Cansou-se o mundo a estudar
e os sábios morreram velhos
fartos de procurar remédios,
e nunca acharam o remédio de parar.
E inda eu hoje vivo no século XX
a ver desfilar burgueses
trezentas e sessenta e cinco vezes ao ano,
e a saber que um dia
são vinte e quatro horas de chatice
e cada hora sessenta minutos de tédio
e cada minuto sessenta segundos de spleen!
Ora bolas para os sábios e pensadores!
Ora bolas para todas as épocas e todas as idades!
Bolas pròs homens de todos os tempos,
e prà intrujice da Civilização e da Cultura!
Eu invejo-te a ti, ó coisa que não tens olhos de ver!
Eu queria como tu sentir a beleza de um almoço pontual
e a fe'licidade de um jantar cedinho
co'as bestas da família.
Eu queria gostar das revistas e das coisas que não prestam
porque são muitas mais que as boas
e enche-se o tempo mais!
Eu queria, como tu, sentir o bem-estar
que te dá a bestialidade!
Eu queria, como tu, viver enganado da vida e da mulher,
e sem o prazer de seres inteligente pessoalmente!
Eu queria, como tu, não saber que os outros não valem nada
p'ra os poder admirar como tu!
Eu queria que a vida fosse tão divinal
como tu a supões, como tu a vives!
Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça
a boiar à tona d'água, à mercê dos ventos,
sem nunca saber que fundo que é o Mar!
Olha para ti!
Se te não vês, concentra-te, procura-te!
Encontrarás primeiro o alfinete
que espetaste na dobra do casaco,
e depois não percas o sítio,
porque estás decerto ao pé do alfinete.
Espeta-te nele para não te perderes de novo,
e agora observa-te!
Não te escarneças! Acomoda-te em sentido!
Não te odeies ainda qu'inda agora começaste!
Enjoa-te no teu nojo, mastodonte!
Indigesta-te na palha dessa tua civilização!
Desbesunta-te dessa vermência!
Destapa a tua decência, o teu imoral pudor!
Albarda-te em senso! Estriba-te em Ser!
Limpa-te do cancro amarelo e podre!
Do lazarento de seres burro!
Desatrela-te do cérebro-carroça!
Desata o nó-cego da vista!
Desilustra-te, descultiva-te, despole-te,
que mais vale ser animal que besta!
Deixa antes crescer os cornos que outros adornos da
Civilização!
Queria-te antes antropófago porque comias os teus
– talvez o mundo fosse Mundo
e não a retrete que é!
Ahi! excremento do Mal, avergonha-te
no infinitamente pequeno de ti com o teu papagaio:
Ele fala como tu e diz coisas que tu dizes
e se não sabe mais é por tua culpa, meu mandrião!
E tu, se não fossem os teus pais,
davas guinchos, meu saguim!
- Tu és o papagaio de teus pais!
Mas há mais, muito mais
que a tua ignorância-miopia te cega.
Empresto-te a minha Inteligência.
Vê agora e não desmaies ainda!
Então eu não tinha razão?
P'ra que me chamavas doido
quando eu m'enjoava de ti?
Ah! Já tens medo?!
Porque te rias da vida
e ias ensuorar as virilhas nos fauteuils das revistas
co'as pernas fogo de vistas
das coristas de petróleo?
Porque davas palmas aos compéres e actorecos
pelintras e fantoches
antes do palco, no palco e depois do palco?
Ora dize-Me com franqueza:
Era por eles terem piada?
Então era por a não terem
Ah! Era p'ra tu teres piada, meu bruto?!
Porque mandaste de castigo os teus filhos p'r'ás Belas-Artes
quando ficaram mal na instrução primária?
Porque é que dizes a toda a gente que o teu filho idiota
estuda p'ra poeta?
Porque te casaste com a tua mulher
se dormes mais vezes co'a tua criada?
Porque bateste no teu filho quando a mestra
te contou as indecências na aula?
Não te lembras das que tu fizeste
com a própria mestra de moral?
Ou queres tu ser decente,
tu, que tens dezanove filhos?!
Porque choraste tanto quando te desonraram a filha?
Porque lhe quiseste matar o amante?
Não achas isto natural? Não achas isto interessante?
Porque não choraste também pelo amante?...
Deixa! Deixa! Eu não te quero morto com medo de ti-próprio!
Eu quero-te vivo, muito vivo, a sofrer!
Não te despetes do alfinete!
Eu abro a janela pra não cheirar mal!
Galopa a tua bestialidade
na memória que eu faço dos teus coices,
cavalga o teu insecticismo na tua sela de D. Duarte!
Arreia-te de Bom-Senso um segundo! peço-te de joelhos.
Encabresta-te de Humanidade
e eu passo-te uma zoologia para as mãos
p'ra te inscreveres na divisão dos Mamíferos.
Mas anda primeiro ao Jardim Zoológico!
Vem ver os chimpanzés! Acorpanzila-te neles se te ousas!
Sagra-te de cu-azul a ver se eles te querem!
Lá porque aprendeste a andar de mãos no ar
não quer dizer que sejas mais chimpanzé que eles!
Larga a cidade masturbadora, febril,
rabo decepado de lagartixa,
labirinto cego de toupeiras,
raça de ignóbeis míopes, tísicos, tarados,
anémicos, cancerosos e arseniados!
Larga a cidade!
Larga a infâmia das ruas e dos boulevards
esse vaivém cínico de bandidos mudos
esse mexer esponjoso de carne viva
Esse ser-lesma nojento e macabro
Esse S ziguezague de chicote auto-fustigante
Esse ar expirado e espiritista...
Esse Inferno de Dante por cantar
Esse ruído de sol prostituído, impotente e velho
Esse silêncio pneumónico
de lua enxovalhada sem vir a lavadeira!
Larga a cidade e foge!
Larga a cidade!
Vence as lutas da família na vitória de a deixar.
Larga a casa, foge dela, larga tudo!
Nem te prendas com lágrimas, que lágrimas são cadeias!
Larga a casa e verás - vai-se-te o Pesadelo!
A família é lastro, deita-a fora e vais ao céu!
Mas larga tudo primeiro, ouviste?
Larga tudo!
– Os outros, os sentimentos, os instintos,
e larga-te a ti também, a ti principalmente!
Larga tudo e vai para o campo
e larga o campo também, larga tudo!
– Põe-te a nascer outra vez!
Não queiras ter pai nem mãe,
não queiras ter outros nem Inteligência!
A Inteligência é o meu cancro
eu sinto-A na cabeça com falta de ar!
A Inteligência é a febre da Humanidade
e ninguém a sabe regular!
E já há Inteligência a mais pode parar por aqui!
Depois põe-te a viver sem cabeça,
vê só o que os olhos virem,
cheira os cheiros da Terra
come o que a Terra der,
bebe dos rios e dos mares,
- põe-te na Natureza!
Ouve a Terra, escuta-A.
A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!
Depois, põe-te à coca dos que nascem
e não os deixes nascer.
Vai depois pla noite nas sombras
e rouba a toda a gente a Inteligência
e raspa-lhes a cabeça por dentro
co'as tuas unhas e cacos de garrafa,
bem raspado, sem deixar nada,
e vai depois depressa muito depressa
sem que o sol te veja
deitar tudo no mar onde haja tubarões!
Larga tudo e a ti também!
Mas tu nem vives nem deixas viver os mais,
Crápula do Egoísmo, cartola d'espanta-pardais!
Mas hás-de pagar-Me a febre-rodopio
novelo emaranhado da minha dor!
Mas hás-de pagar-Me a febre-calafrio
abismo-descida de Eu não querer descer!
Hás-de pagar-Me o Absinto e a Morfina
Hei-de ser cigana da tua sina
Hei-de ser a bruxa do teu remorso
Hei-de desforra-dor cantar-te a buena-dicha
em águas fortes de Goya
e no cavalo de Tróia
e nos poemas de Poe!
Hei-de feiticeira a galope na vassoura
largar-te os meus lagartos e a Peçonha!
Hei-de Vara Mágica encantar-te Arte de Ganir
Hei-de reconstruir em ti a escravatura negra!
Hei-de despir-te a pele a pouco e pouco
e depois na carne-viva deitar fel,
e depois na carne-viva semear vidros,
semear gumes,
lumes,
e tiros.
Hei-de gozar em ti as poses diabólicas
dos teatrais venenos trágicos do persa Zoroastro!
Hei-de rasgar-te as virilhas com forquilhas e croques,
e desfraldar-te nas canelas mirradas
o negro pendão dos piratas!
Hei-de corvo marinho beber-te os olhos vesgos!
Hei-de bóia do Destino ser em brasa
e tua náufrago das galés sem horizontes verdes!
E mais do que isto ainda, muito mais:
Hei-de ser a mulher que tu gostes,
hei-de ser Ela sem te dar atenção!
Ah! que eu sinto claramente que nasci
de uma praga de ciúmes.
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo
e a Alma dos Bórgias a penar!...

Frederico Lourenço, parabéns!

Prémio Europa - David Mourão-Ferreira para Frederico Lourenço destinado a galardoar uma obra recente das letras e artes lusófonas.

Parabéns, Frederico. É sempre grato saber que um amigo recebe, por mérito, um galardão. Valeu a pena todas as lutas e todo o esforço. Fico feliz com mais este reconhecimento que te é feito.

Podwojne zycie II


Veinte poemas de amor y una canción desesperada 15 de junho de 1924



4

Es la mañana llena de tempestad
en el corazón del verano.
Como pañuelos blancos de adiós viajan las nubes,
el viento las sacude con sus viajeras manos.
Innumerable corazón del viento
latiendo sobre nuestro silencio enamorado.
Zumbando entre los árboles, orquestal y divino,
como una lengua llena de guerras y de cantos.
Viento que lleva en rápido robo la hojarasca
y desvía las flechas latientes de los pájaros.
Viento que la derriba en ola sin espuma
y sustancia sin peso, y fuegos inclinado.
Se rompe y se sumerge su volumen de besos
combatido en la puerta del viento del verano.

12

Para mi corazón basta tu pecho,
para tu libertad bastan mis alas.
Desde mi boca llegará hasta el cielo
lo que estaba dormido sobre tu alma.
Es en ti la ilusión de cada día.
Llegas como el rocío a las corolas.
Socavas el horizonte con tu ausencia.
Eternamente en fuga como la ola.
He dicho que cantabas en el viento
como los pinos y como los mástiles.
Como ellos eres alta y taciturna.
Y entristeces de pronto como un viaje.
Acogedora como un viejo camino.
Te pueblan ecos y voces nostálgicas.
Yo desperté y a veces emigran y huyen
pájaros que dormían en tu alma.

Pablo Neruda

A voar, a voar...


Em 15 de Junho de 1922, Gago Coutinho e Sacadura Cabral chegam ao Rio de Janeiro de hidroavião, realizando a primeira travessia aérea do Atlântico Sul. Saíram de Lisboa a 30 de Março.

Há 100 anos

Ladies' Home Journal, 1906

14 de Junho de 2006

A ouvir Die Zauberflöte com Borges

e a ver a chuva a cair na relva, um a um os chocolates acompanham a leitura. Um enorme arco-íris desenha-se no céu e esta luz de trovoada nauseia-me, enerva-me. Detesto esta luz amarelada, tingida de tintura de iodo.

“Aquele que andar
Por estes caminhos
Cheios de dificuldades,
Terá de passar pelas provas
Do fogo, da água, do ar e da terra
E, se vencer
O temor da morte,
Como que deixará a terra
Em direcção ao brilho do céu.
Iluminados, coração e mente,
Empenhar-se-ão pelo direito
E no sagrado rito de Ísis
Encontrarão a verdadeira luz.”

[II acto - os guardas]

Mais um chocolate e um gole de café amargo. Delicioso. E este livro. Jorge Luis Borges. Como uma tarde de chuva pode ser uma tarde feliz, tranquila e quase diáfana.

Alguien sueña

¿Qué habrá soñado el Tiempo hasta ahora, que es, como todos los ahoras , el ápice?
Ha soñado la espada, cuyo mejor lugar es el verso.
Ha soñado y labrado la sentencia, que puede simular la sabiduría.
Ha soñado la fe, ha soñado las atroces Cruzadas.
Ha soñado a los griegos que descubrieron el diálogo y la duda.
Ha soñado la aniquilación de Cartago por el fuego y la sal.
Ha soñado la palabra, ese torpe y rígido símbolo.
Ha soñado la dicha que tuvimos o que ahora soñamos haber tenido.
Ha soñado la primera mañana de Ur.
Ha soñado el misterioso amor de la brújula.
Ha soñado la proa del noruego y la proa del portugués.
Ha soñado la ética y las metáforas del más extraño de los hombres, el que murió una tarde en una cruz.
Ha soñado el sabor de la cicuta en la lengua de Sócrates.
Ha soñado esos dos curiosos hermanos, el eco y el espejo.
Ha soñado el libro, ese espejo que siempre nos revela otra cara.
Ha soñado el espejo en que Francisco López Merino y su imagen se vieron por última vez.
Ha soñado el espacio. Ha soñado la música, que puede prescindir del espacio.
Ha soñado el arte de la palabra, aún más inesplicable que el de la música, porque incluye la música.
Ha soñado una cuarta dimensión y la fauna singular que la habita.
Ha soñado el número de la arena.
Ha soñado los números transfinitos, a los que se llega contando.
Ha soñado al primero que en el trueno oyó el nombre de Thor.
Ha soñado las opuestas caras de Jano, que no se verán nunca.
Ha soñado la luna y los dos hombres que caminaron por la luna.
Ha soñado el pozo y el péndulo.
Ha soñado a Walt Whittman, que decidió ser todos los hombres, como la divinidad de Spinoza.
Ha soñado el jazmín, que no puede saber que lo sueñan.
Ha soñado las generaciones de hormigas y las generaciones de los reyes.
Ha soñado la vasta red que tejen todas las arañas del mundo.
Ha soñado el arado y el martillo, el cáncer y la rosa, las campanadas del insomnio y el ajedrez.
Ha soñado la enumeración que los tratadistas llaman caótica y que de hecho es cósmica, porque todas las cosas están unidas por vínculos secretos.
Ha soñado a mi abuela Frances Haslam en la guarnición de Junín, a un trecho de las lanzas del desierto, leyendo su Biblia y su Dickens.
Ha soñado que en las batallas los tártaros cantaban.
Ha soñado la mano de Hokusai, trazando una línea que será muy pronto una ola.
Ha soñado a Yorick, que vive para siempre en unas palabras del ilusorio Hamlet.
Ha soñado los arquetipos.
Ha soñado que a lo largo de los veranos, o en un cielo anterior a los veranos, hay una sola rosa.
Ha soñado las caras de tus muertos, que ahora son empañadas fotografías.
Ha soñado la primera mañana de Uxmal.
Ha soñado el acto de la sombra.
Ha soñado las cien puertas de Tebas.
Ha soñado los pasos del laberinto.
Ha soñado el nombre secreto de Roma, que era su verdadera muralla.
Ha soñado la vida de los espejos.
Ha soñado los signos que trazará el escriba sentado.
Ha soñado una esfera de marfil que guarda otras esferas.
Ha soñado el calidoscopio, grato a los ocios del enfermo y del niño.
Ha soñado el desierto.
Ha soñado el alba que acecha.
Ha soñado el Ganges y el Támesis, que son nombres de agua.
Ha soñado mapas que Ulises no habría comprendido.
Ha soñado a Alejandro de macedonia.
Ha soñado el muro del Paraíso, que detuvo a Alejandro.
Ha soñado el mar y la lágrima.
Ha soñado el cristal.
Ha soñado que alguien lo sueña.

Pouso o livro e escuto, a Flauta Mágica está a chegar ao fim. Belíssima. Faz-me bem ouvi-la. Quando estou neura, meto-me no carro com ela altíssima e vou para a A1 que percorro até me acalmar. Depois regresso a casa e sinto-me outra.

"A felicidade consiste unicamente em imaginarmos que somos felizes" - Mozart

Sim...?! Ficamos muito mais sossegados...


[imagem surrupiada ao Jirenna]

comunicação por mesa pé de galo... :))))

Cão atónito

Um dos meus filhos - o que teve aulas... - chegou há pouco a casa e veio dar-me um beijo como sempre e disse:

- Mãe, a professora de Música desmaiou e bateu com a cabeça na mesa. Está grávida e ficou inconsciente. Tem um golpe a sangrar.

- Então e ninguém fez nada?! Não acredito...

- Chamaram a ambulância e, quando chegou, levaram-na para a ambulância...

- Sim... e?

- A ambulância ainda lá está. Não "pegava". Estavam a ver se a punham a trabalhar...

São 12h 21m de quarta-feira 14 de Junho de 2006. O Bruno chegou há 20 minutos a casa. A ambulância ainda não saiu da escola.

Senhores responsáveis locais, o que é isto???

Hoje não me apetecem todas as palavras


Every breath you take


Chuva...


cheira a terra viva
Bom dia!

Natália

[post saqueado no Ortogal]




Foi-me preciso descobrir que:

A lógica é a ciência de gerir os rendimentos da estupidez;
Os políticos não são inteiramente galinhas porque cacarejam e não põem ovos;
As pastas dos executivos levam dentro aranhas para urdirem as teias que nos imobilizam;
A família é um cardume de piranhas ao redor da carcaça de uma vaca sagrada;
A sociologia é uma completa falta de humor perante a decadência;
Os gestores destilam um suor frio que nos constipa;
As nações içam as bandeiras para porem o falo a pino e masturbarem-se;
As esquerdas e as direitas resultam do pacto de não inverterem os papéis;
O socialismo é um estratagema para negar aos exploradores o direito ao desaparecimento;
O liberalismo é uma manha do Estado para forjar algemas com a liberdade;
Os intelectuais são uma chatice com que o Criador não contava;
A economia é adquirir-se o vício do fumo porque se comprou um isqueiro;
Dos vencidos não reza a história porque se renderam à razão;

Para concluir que:

Chegou a hora romântica dos deuses nos pedirem desobediência. Faço-lhes a vontade. A partir de hoje, se alguém me quiser encontrar que me procure entre o riso e a paixão.

Natália Correia, A Ilha de Circe

Dias Felizes - Memorial da Missão



José da Silva Vieira nasceu em Cinfães em 1960. Entrou para o seminário comboniano da Maia em 1972. Depois de terminar a formação em Portugal, cursou teologia em Londres, na Inglaterra. Ordenado presbítero em 1987, foi redactor da revista Audácia até 1993, altura em que partiu para a Etiópia. Após quase oito anos nesse país africano e oito meses no México, regressou a portugal em 2001, fazendo parte da redacção da revista Além-Mar. (retirado da contracapa)

Este livro do autor do Jirenna impressiona pela complexidade da singeleza com que relata na 1ª pessoa tempos difíceis, mas felizes, numa terra distante, estranha e esquecida do mundo. Como o Pe. José Vieira diz, na pág. 102, uma terra onde para lá estar teve não só que passar por dificuldades e problemas, mas também de se desligar de pessoas que lhe eram muito queridas e de reaprender a viver.

Não vou estar a desenvolver qualquer apreciação qualitativa deste livro. Mais do que por essa frivolidade, este livro importa pela narrativa de factos e experiências vividas - entrecruzadas com textos poéticos que são orações sentidas - que nos levam, primeiramente, a meditar nas nossas prioridades enquanto cidadãos de um mundo chamado desenvolvido e, posteriormente, a vermos através de um olhar conhecedor o outro lado da realidade numa atracção pelo trepar para dentro do espelho...

Mais relevante que quaisquer palavras que eu para aqui debite, será a partilha de alguns excertos do livro, apesar da dificuldade em seleccioná-los:

"(...) Sei o que deixei: família, amigos, estilo de vida, língua, cultura, trabalho, afectos... Tantas coisas que faziam o meu dia-a-dia. Por outro lado, o que é que eu tenho à minha frente? Uma língua que não entendo, o organismo a protestar contra a altitude e humidade de Qillenso (perdi bastante peso, a pressão arterial baixou, a garganta anda mal). No fundo tive que reaprender a viver.(...)" - p. 39

"(...) Uma família convidou-nos para jantar: pão local feito de polpa fermentada da falsa bananeira, couves, galinha cozida bem picante e café. Lá fora chove a cântaros e o barulho da trovoada é ensurdecedor. O fogo crepitante torna o ambiente da cabana ainda mais acolhedor. Ficámos a conversar amenamente sobre miudezas da vida da aldeia. A tempestade amainou e aproveitámos a estiagem para regressar a casa. (...)" - p.70

"(...) Há uma questão que nós, missionários, temos que resolver com urgência: transformar o Evangelho em Boa Nova de libertação para a condição feminina, numa cultura que a escraviza e que a reduz a fábrica de bebés e a uma moura de trabalho. A mulher tem que olhar pela casa, pelos filhos (muitos) e pelo gado, enquanto o homem conversa. Quando se pergunta a um grupo de homens o que fazem em amena cavaqueira debaixo de uma árvore, invariavelmente respondem : "Hinteena! - estamos sentados e tu senta-te connosco!" (...)" - p. 114

"(...) A noite já ia alta quando fui acordado pela mesma sensação da véspera: as formigas tinham dado comigo outra vez. Depois de me sacudir e catar, peguei no cobertor e no saco-cama e fui acordar o catequista e a sua família, para passar o que sobrava da noite na sua cabana, a uns cinco minutos da capela. Acomodaram-me como puderam e tentei esquecer as ferradas das pulgas e descansar (...)" - p. 142

Por este livro, ficamos a conhecer gente que faz da sua vida um trajecto ao serviço dos que precisam, lutando contra as suas próprias hesitações e abandonando as suas comodidades, enfrentando as adversidades com fé e persistência. É uma lição sem moralismos muito bem conseguida, com a autenticidade de quem a viveu.

13 de Junho de 2006

Apenas


Não te vou cobrar nada.
Apenas quero de ti
alento na caminhada
que escolhi.

O que te dei - não dei.
Apenas te devolvi
parte daquilo que eu sei
que me vem de ti.

Torquato da Luz

Ler os outros:

.) vários, destaque para Entrevista ao Padre Chico, de Timor - no Duas Cidades

.) vários sobre Timor - no Completamente a Leste

.) À procura de emprego - no Corta-Fitas

.) O turismo ideológico (rep. com adenda) - no Dragoscópio

.) A primeira vítima - no Escrita em dia

.) A retoma da economia nacional por via do antivírus - no Macroscópio

.) Os ex-maoístas em todo o seu esplendor - no Nada te turbe

.) Durão Barroso ganhou o prémio Tuvalu - n' O avesso do avesso

.) O Presidente de todos os Portugueses, menos um - n' O Jumento

.) Não sabia o hino - n' O Jumento

.) "Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas." - n' O mundo perfeito

.) Premonição e Natália - no Ortogal

.) A Escola - no Portugal dos Pequeninos

.) Porquê? - no TomarPartido

De volta, com Yusuf Islam (Cat Stevens)...



Como detesto sardinhas, sabor e cheiro, e não sou nada dada a manjericos, o meu Santo António foi até terras de S. João... ou de outros santos quaisquer... sei lá (!?)... também não importa nada (!? again)... e voltei com mais um oldie que desde a adolescência me acompanha... dá-me gozo abrir o baú das recordações e procurar discos - tinham um som tão bom, não tinham? - enfim, qualquer dia ainda me apanham a dizer que a vidinha de antes é que era boa... oh lolol...

Esta tarde a trovoada caiu



Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...
Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chovia do céu
E enegreceu os caminhos ...
Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê — eu não tinha medo —
pus-me a rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...

Ah! é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranqüilamente, como o muro do quintal;
Tendo idéias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...

Sentia-me alguém que nossa acreditar em Santa Bárbara...
Ah, poder crer em Santa Bárbara!

(Quem crê que há Santa Bárbara,
Julgará que ela é gente e visível
Ou que julgará dela?)

(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
É Deus, e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós ...
Ali, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)

E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega.

Fernando Pessoa/Alberto Caeiro

12 de Junho de 2006

Let me whisper in your ear...



"You just too good to be true/can't take my eyes off of you" too, but "where will it lead us from here?... You can't say we're satisfied", can you?

Insónia

Inventei tantos mundos
e abri tantas portas
em minha insônia
que tem noites
que não encontro o
caminho
para voltar pra dentro de
mim.

Ademir Bacca

Mãe

Foste faz hoje muitos anos. Houve alturas em que perguntei porque partiste. Doía a tua ausência. Fazia-me falta o teu perfume, as tuas mãos, a tua voz. Trinta e oito anos depois, sei que ficaste, continuas viva em mim todos os dias que tenho para ser mãe. Beijo-te mãe na memória de ti.

II. Da leitura do artigo do Prof. Anselmo Borges

De todos os textos que li do Professor Anselmo Borges no DN, este é sem margens para dúvidas aquele que mais me tocou. Brilhantes e profundamente humanísticos são todos; mas este é um texto tão autenticamente cristão que não pode deixar ninguém indiferente.

Quando assistimos a situações execráveis nalguns media, impávidos e sem agonia, como a da exposição da foto de al-Zarqawi morto com dichotes que são um impropério, ou nos deparamos com uma coluna de opinião, lazarenta e saudosista no que de pior esta palavra encerra, assinada por um homem que ostenta o bigode de Pancho Villa na testa e que escreve textos inqualificáveis, evidentemente que ler este texto, entre alguns outros embora raros, é um paleativo para a descrença e um reforço para a convicção de que ainda há esperança na humanidade e que os jornais ainda têm espaços que proporcionam uma leitura interessante.

"(...) Tomai, comei e bebei, isto é o símbolo da minha vida entregue por amor e salvação de todos." - este todos significa todo e qualquer um. É esta a mensagem que um homem que alguns acreditam ser o filho de Deus - não somos todos? - deixou, quer seja visto como filósofo ou como ser divino, pouco importa. Todos serão salvos pela vida entregue, isto é, pelo sacrifício com que pagou ter acreditado num objectivo, num ideal de mudança em que todos comungariam a uma mesma mesa. A mesa significa partilha e esta será a partilha da confraternização de todos os homens no respeito mútuo e na alegria da vida, apesar das diferenças de cada um.

"(...)Banquetes frequentemente escandalosos, pois Jesus comia e convivia com pecadores e publicanos, marginalizados e gente de vida pouco recomendável" (...) e "aproveitava a ocasião para denunciar a hipocrisia e o modo de vida dos líderes" - Cristo interviu na vida social e política do seu tempo, não pela admissão do instituído nem por omissão, mas pela assumpção de atitudes coerentes com as suas palavras. Tais como "amar ao próximo como a si mesmo" ou "não fazer aos outros o que não desejamos para nós". Jesus nunca disse para nos conformarmos, mas sim para lutarmos por sermos melhores, focalizando-se num princípio irreversível: nós somos o nosso pior inimigo. Ao combatermos em nós a ambição desmedida, a vaidade e o egoísmo estaremos a ser melhores cidadãos porque melhores pessoas. As palavras de Cristo dirigiram-se à nossa individualidade e não a um colectivo homogéneo e apascentado, como um rebanho do senhor... qual senhor? Cristo divulgou a igualdade entre os homens e não suseranias. Cristo falou a um homem que se queria livre seja de que peias for, sendo a primeira o preconceito que os etiqueta em classes e em possibilidades ou posses. Segundo ele, todos os homens são iguais e os que precisam de mais cuidados são os que primeiro necessitam da palavra cristã.

"(...) o pão eucarístico chamou-se hóstia, uma palavra que em latim significa vítima. Impressiona como é que os humanos parecem incapazes de conceber um Deus que não precise nem queira vítimas!" - a vitimização do momento eucarístico é estranhíssima e incoerente porquanto se Cristo morreu e ressuscitou, segundo a catequese, porque comer o corpo e beber o sangue de Cristo? Um ritual perfeitamente antropofágico, quer queiramos quer não. Não se trata de corpo e de sangue, mas de palavra sofrida, mensagem que foi transmitida com sofrimento, para um mundo melhor. Quantos visionários, se assim o quisermos ver, não pagaram este mesmo preço pelo seu semelhante? Vamos comer-lhes a carne e beber o sangue? Ou interiorizar o ideal e moldarmos a nossa ideologia a esse padrão?

"(...) Um Deus que não precise nem queira vítimas(...) - nestas palavras leio o constrangimento de um padre que não poderá por cumprimento de obediência devida dizer o que lhe irá na alma. Como pode Deus querer vítimas e genocídios quaisquer que sejam? Qual o pai que quer a morte dos seus filhos? Quantos pais, no entanto, já passaram pela dor de saber que os seus filhos cometeram um crime de sangue? Violando aquilo que ele lhes ensinou? É o pai culpado?! Por respeito a um silêncio que entendo, não vou aqui escalpelizar o que mais poderá estar subentendido.

"(...) esqueceu-se o essencial" - a presença do amor. Perguntar-nos-emos o que é o amor. Será "criar laços" ou "ter necessidade do outro" como escreveu Saint-Exupéry. Quem tem necessidade de Cristo na sua vida, cria um laço com ele, a fé. Assim, tentará não esquecer o essencial. Porém, as igrejas ditas cristãs têm-no feito ao longo dos séculos, lutando fratricidamente pelo acessório, a detenção de uma Verdade só sua, em vez de se unirem na essência do Cristianismo: amar e servir o outro e ser amados.

"(...) Celebrar nestas condições o banquete fraterno do Senhor era uma contradição mortal (...)" - o homem sempre sobrepôs a sua mesquinhez à palavra de Cristo e, como tal, reinterpretou o postulado de Paulo de Tarso como melhor se ajeitava aos seus pequeninos interesses e investiu-se da cátedra de julgador do seu semelhante, contrariando uma vez mais a palavra do "cordeiro de Deus" que sempre disse que o Pai é que julgaria o homem pelos seus actos morais. Tecer critérios acerca de quem poderia ou não comungar da mesa da palavra do Salvador era muito mais sedutor aos interesses próprios da avidez de quem podia liderar do que partilhar com os restantes dos bens terrenos que eram e são de todos. A moral religiosa talhada à medida dos que se intitulam donos da cristandade... moral tão diversa e inconforme a Cristo....

"(...) Dizem as estatísticas que, em Portugal, 91% da população são católicos e que cerca de dois milhões e meio de portugueses celebram todos os domingos a Missa, o banquete fraterno do Senhor (...)" - eis a chave de ouro de todo o texto do Prof. Anselmo Borges. Impõem-se várias interrogações: como é possível ser-se católico e viver sem Cristo? Como é possível ser-se católico e viver em ruptura com a Santa Madre Igreja do Vaticano? Como ser-se cristão e aceitar o catolicismo? Como aceitar uma igreja que não respeita o seu semelhante, surda e cega, e quantas vezes muda, ao sofrimento do próximo? Como compreender uma igreja relapsa e frouxa, acomodada e enriquecida, tirana e dogmática, cristalizada em postulados mal interpretados, amigada com os poderes, que não vive para o homem mas do homem?

Como Cândido, restar-nos-á perguntar "(...) Se este é o melhor dos mundos possíveis, que serão os outros? (...)" e reflectir quem, ao longo de quase dois milénios, distorceu e tornicou uma mensagem e foi a causadora de tanto sofrimento no mundo, quem moldou consciências, quem confirmou poderes, quem virou costas aos infelizes e aos pobres, quem condenou, maltratou e vilipendiou o seu semelhante em nome daquele que sempre lhe estendeu a mão? Bastará pedir desculpas? A quem? A mim? A si? A nós? Quem somos para desculpar? Fomos nós os maiores mártires e os ofendidos? Pensemos, reflictamos e oiçamos a consciência.

I. Um artigo no DN a ler com muitíssima atenção
[sublinhados meus]

A presença real de Jesus Cristo


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Ninguém sabe quantos portugueses conhecem a razão por que na próxima quinta-feira é feriado nacional. Estou convicto de que esse número é diminuto. Aliás, o mesmo se deve passar com a maior parte dos feriados religiosos e também os outros. O que mais interessa já não é a referência do feriado, mas o feriado em si. Na base do feriado da próxima quinta- -feira, Festa do Corpo de Deus, está um banquete. Dois banquetes marcaram o Ocidente. Um é O Banquete, de Platão, com todos aqueles diálogos sobre o amor nas suas várias perspectivas. O outro é a Última Ceia de Cristo, enquadrada também por um longo discurso sobre o amor e na iminência da morte. Jesus tomou o pão e o cálice com vinho, pronunciou a bênção e disse: "Tomai, comei e bebei, isto é o símbolo da minha vida entregue por amor e salvação de todos."

Os primeiros cristãos, animados pela fé no Jesus crucificado e ressuscitado para a vida do Deus -Amor vivente, juntavam-se à volta da mesa numa refeição fraterna e festiva - quem presidia era o dono ou a dona da casa - e alimentavam-se do Pão e da Palavra, aprofundando a fé, a esperança e o amor.

Essas celebrações lembravam a Última Ceia e também aqueles banquetes que Jesus tivera ao longo da vida. Banquetes frequentemente escandalosos, pois Jesus comia e convivia com pecadores e publicanos, marginalizados e gente de vida pouco recomendável. Por outro lado, tornava-se por vezes um hóspede inconveniente e até insolente, já que aproveitava a ocasião para denunciar a hipocrisia e o modo de vida dos líderes.

Não imaginamos hoje, por exemplo, o insólito daquela cena durante um banquete em casa de Simão, quando uma pecadora pública lhe banhou os pés com as lágrimas e os enxugou com os cabelos, os beijou e ungiu com perfume, tendo Jesus comentado: "Os seus pecados são-lhe perdoados, porque muito amou; àquele a quem pouco se perdoa pouco ama." Noutra ocasião, o anfitrião que se espantou por Jesus não lavar as mãos ouviu este discurso: "Vós limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e de maldade." Estas refeições provocatórias de Jesus eram o que se chama parábolas em acção. Comendo e bebendo com pecadores públicos e marginalizados social e religiosamente, anunciava-lhes em acto a presença do amor de Deus que perdoa e salva.

Apontando para o banquete escatológico do Reino de Deus, já presente, Jesus convida e manda convidar a todos: os pecadores, os coxos, os pobres, os deformados, os pagãos, mesmo aqueles e sobretudo aqueles e aquelas que não podem retribuir o convite. Numa sociedade em que tudo se compra e tudo se vende, é inimaginável este discurso sobre um mundo em que o melhor é de graça. "Vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; comprai, sem dinheiro e sem pagar", lê-se já no profeta Isaías.

Mais tarde, a mesa à volta da qual tinha lugar aquela refeição fraterna, memorial da vida, da morte e da ressurreição de Jesus e anúncio do banquete que não tem fim, transformou-se num altar e o pão eucarístico chamou-se hóstia, uma palavra que em latim significa vítima. Impressiona como é que os humanos parecem incapazes de conceber um Deus que não precise nem queira vítimas!

Depois, o debate girou à volta da presença de Jesus no pão e no vinho. Nas lutas da Reforma e da Contra-Reforma, chegou a haver mortos por causa desse debate: se a presença de Cristo no altar era real ou simbólica, se havia transubstanciação ou consubstanciação...

Nessas lutas, esqueceu-se o essencial. Não se reflectiu sobre o que significa verdadeiramente presença real. Afinal, um homem e uma mulher podem estar fisicamente presentes, até do modo mais íntimo; se não houver amor, não há presença real entre eles. Mas, se houver amor, mesmo fisicamente ausentes, estão realmente presentes.

Por outro lado, fez-se apelo ao que São Paulo escreveu aos cristãos de Corinto: "Quem comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor." Mas afinal o que Paulo estava a denunciar era a situação insustentável da comunidade de Corinto: enquanto uns se fartavam a comer e a beber, outros passavam fome. Celebrar nestas condições o banquete fraterno do Senhor era uma contradição mortal.

Dizem as estatísticas que, em Portugal, 91% da população são católicos e que cerca de dois milhões e meio de portugueses celebram todos os domingos a Missa, o banquete fraterno do Senhor. O que não se percebe então é, por exemplo, como é que o fosso entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres se cava cada vez mais fundo.

11 de Junho de 2006

Pauleta, o açor


Não deu para roer as unhas, só pude gritar um goooolo mas... sem bairrismos :)))))... foi um açoreano que marcou!!!!

Hoje bola...
[com Hino]



Portugal - Angola


Vou ver o jogo. Vou berrar nos golos, vou roer as unhas de comoção, vou vibrar com a vitória e vou emocionar-me. E vou gostar de ouvir o Hino. Só quem nunca o ouviu fora do país não entende a emoção que é.

Depois, se calhar, pela noite fora, vou acabar de reler o Cândido de Voltaire. E entender que bom mesmo é estar-me nas tintas para os que no segredo das suas mediocridadezinhas invejam, na sua "superioridade intelectual", a minha - e a dos iguais a mim - alegria de viver.

Hoje, o meu coração azul e branco vai vestir verde-amarelo-vermelho.

Bom jogo!

Bad girl...



Abomino o ser "porque sim", ser porque os outros são, pensar o que os outros pensam, fazer o que os outros querem que se faça ou esperam que assim seja ou porque é assim que deve ser... Chega!

Não quero trocar de pele nem tatuá-la com as aspirações, os medos ou os ascos dos outros.
Não quero esperar quando me apetece avançar, não vou calar mais as palavras que quero dizer.
Não vou pretender ser, quero ser plenamente, aqui, ali, onde quer que seja. Conhecer céus e o os infernos todos é o meu trilho. Não me dêem piedades nem palavras ocas de sentimento. Não as quero. A dor dos outros não é a minha, a minha às vezes, quantas?, também não a é. Desconheço-me e a ninguém conheço.

Eu sou água em movimento, indiferente aos que nela se afogam, miragem e sedução, sedenta de marés convulsas desfragmentada entre luas. Terra ora fecunda ora árida, terra dolente, cálida ou gelada, alimento e sepultura. Não é o ar alheio que alimenta o meu fogo.

Eu sou a outra que eu sou, reflexos de mim num espelho côncavo ou convexo tanto faz, eu sou a outra e a outra só eu sou. Eco de mim nunca mais. Antes grito que lamento, antes o vómito à repugnância engolida. Prefiro os ventos, galernos, espertos ou ventantes, arribarei sempre ao meu porto apesar dos xaroucos. Sou nau e tenho vela, latina ou quadrada tanto faz, nau de loucos ou barca bela, sou a nau e irei ao zénite ou ao nadir ao sê-la.

Powrot do domu

Poema que Aconteceu

Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.

Carlos Drummond de Andrade

10 de Junho de 2006

Sábado... malditos sábados!!!


Hoje toda a gente tem aquele ar postiço de fim-de-semana,
colorido e a dar para o desportivo...
Como eu gosto de um sábado a meio da semana.
Ou de um domingo à quinta-feira.
Do Verão em Dezembro e de chuva em Agosto.

A preguiça que se passeia na rua,
hoje, é só menos mascarada, menos contida.
Cheira a dissimulação, a sorrisos de circunstância,
a almoços de toda a vida, a família desconjuntada,
a infelicidade remoída e mascarada. Sábado
perdido, maquilhado, de joelhos vivido.

Eu quero o meu sábado num dia qualquer
quando bem me apetecer.

Dia de sábado

Porque hoje é Sábado, comprei um violão para minha filha Susana, a fim de que ela aprenda dó maior e cante um dia, ao pé do leito de morte de seu pai, a valsa Lágrimas de dor, de Pixinguinha - e seu pai possa assim cerrar para sempre os olhos entre prantos e galgar a eternidade ajudado pela mão negra e fraterna do grande valsista...

Porque hoje é Sábado, desejarei ser de novo jovem e tremer, como outrora, à idéia de encontrar a mulher casada, de pés de açucena; desejarei ser jovem e olhar, como outrora, meus bíceps fortes diante do espelho...

Porque hoje é Sábado, desejarei estar num trem indo de Oxford para Londres, e à passagem da estação de Reading lembrar-me de Oscar Wilde a escrever na prisão que o homem mata tudo o que ele ama...

Porque hoje é Sábado, desejarei estar de novo num botequim do Leblon, com meu amigo Rubem Braga, ambos negros de sol e com os cabelos, ai, sem brancores; desejarei ser de novo moreno de sol e de amores, eu e meu amigo Rubem Braga, pelas calçadas luminosas da praia atântica, a pele salgada de mar e de saliva de mulher, ai...

Porque hoje é Sábado, desejarei receber uma carta súbita, contendo sobre uma folha de papel de linho azul a marca em batom de uns grossos lábios femininos e ver carimbado no timbre o nome Florença...

Porque hoje é Sábado, desejarei que a lua nasça em castidade, e que eu a olhe no céu por longos momentos, e que ela me olhe também com seus grandes olhos brancos cheios de segredo...

Porque hoje é Sábado, desejarei escrever novamente o poema sobre o dia de hoje, sentindo a antiga perplexidade diante da palavra escrita em poesia, e, como dantes, levantar-me com medo da coisa escrita e ir olhar-me ao espelho para ver se eu era eu mesmo...

Porque hoje é Sábado, desejarei ouvir cantar minha mãe em velhas canções perdidas, quando a tarde deixava um alto silêncio na casa vazia de tudo que não fosse sua voz infantil...

Porque hoje é Sábado, desejarei ser fiel, ser para sempre fiel; ser com o corpo, com o espírito, com o coração fiel à amiga, àquela que me traz no seu regaço desde as origens do tempo e que, com mãos de pluma, limpa de preocupações e angústia a minha fronte imensa e tormentosa...

Vinicius de Moraes

O Cão vai à bola...

...com o Jorge Ferreira... no RCP Online :))))

Amanhecer na praia


viver Portugal e o dia no seu melhor

Santana - Samba Pa Ti

De portas & trancas



portas abrem
e fecham

corações também

nem sempre
quem se quer
entra

nem sempre
quem se gostaria
sai

portas fecham
e abrem

corações também

nem sempre quem sai
nos deixa só

nem sempre quem entra
nos tira da solidão

portas e corações
deviam ter trancas
também pelo lado de fora.

Ademir Antônio Bacca

Lubie ten smutek


9 de Junho de 2006

A ler:

.) Talvez somatizar - n' A memória inventada

.) Antologia improvável - no Abencerragem

.) "Um fanático e um tirano" - no Corta-Fitas

.) Cavaco: cinco anos - no Corta-Fitas

.) T.P.C. - no Escrita em dia

.) Já chegamos à Madeira! - no Grande Loja

.) Português Suave - no Herdeiro de Aécio

.) Regresso a Johann Gutenberg - no Macroscópio

.) O silêncio revelador (análise crítica) - no Macroscópio

.) Saltos altos - no Manchas

.) Eclipses de Deus, Parabéns à Brisa - n' O Jumento

.) Onde está o Costa? e Bigadinho - n' O Jumento

.) Em Timor... e Do Pato Donald ao Bloco... - no Tempo que passa

.) Agenda, O silêncio revelador e Confissão - no TomarPartido

L’oggetto del pensiero



É un’astrazione
e non un fatto:
l’oggetto
di un pensiero
un concetto
più che un sentimento
uno stato desiderato
inseguito dalla mente
eppure insoddisfatto
perduto prima
di averlo conquistato
e, dunque, mai goduto
(sempre sul punto
di essere... ) creduto
e delirato:
il senso del piacere.

Paolo Ruffilli

Sem véus




Atrasada há que tempos para o jantar que tinha combinado, apanho um táxi e vou fazendo uns últimos telefonemas antes de chegar ao pé dele. Ansiosa pelo beijo com que me costuma esperar, sorriso travesso e guloso, quase perverso. Um beijo de homem que me deseja com fome de mim, que sabe beijar, que me come a boca.

Imenso trânsito. As ruas sucedem-se e os semáforos aceleram-me, na sua lentidão, a pulsação. Ele. Agora não quero mais nada que os braços dele a apertarem-me contra o peito.

À porta. Finalmente. A campainha. O elevador. Ele. O olhar e o beijo.
Entro atrás dele para o gabinete. A secretária coberta de papéis. Arrumados, organizados, em pilhas.

- Vamos jantar? O que é que te apetece comer? - pergunta-me com o telefone na mão para marcar mesa. - Já viste as horas? Que estiveste a fazer?

- Fiquei à conversa.

- Já estás com fome?

- Estou, de ti. Fazes-me tesão, quero-te.

- Tesão?! Tu também... Estás gira!

Olhou-me a sorrir, o sorriso de predador que me fascina. A morder as palavras. Como se já soubesse o que eu queria dele... e esperou que o beijasse. Pousou o telefone. E senti que o tinha todo para mim, que podia brincar e tornar a brincar com o corpo dele. Apetecia-lhe jogar o meu jogo. Beijei-lhe os lábios, senti a língua dele na minha... daquele jeito que me faz apetecer tudo nele por inteiro... desalinhá-lo todo, milímetro a milímetro.

- O que é que tu queres? Diz... - agarrava-me os cabelos e, a beijar-me, fixava-me dentro dos olhos e repetia - O que é que tu queres? Vá... diz...

Num momento daqueles, sabemos, temos a certeza, que querem tanto ou mais que nós. Estão nas nossas mãos e nós nas deles. Igual para igual. Desejo que não pensa, que não quer pensar, que não precisa. Não há regras e o único limite é o prazer do outro e dar-lhe o nosso.

- Vá... diz... queres fazer amor?

Já estávamos completamente pele na pele. Nós apenas, sem segredos e sem mistérios... sabemos instintivamente o que o outro gosta... quer... deseja...

- Não, hoje não... amor não. - as mãos dele nas minhas costas, no peito.

- Não?! Então, queres o quê?! - e a língua a passear por mim. Adoro aquela língua. - Diz o que é que queres...

Sentei-me na secretária e deitei-me para trás, as mãos dele em mim, a sentir, a escutar o nosso desejo. Ele a percorrer-me com a língua, a provocar, a puxar-me para ele, de encontro a ele...

- Fode-me. Fode-me muito, como quiseres.

A boca dele nas minhas coxas, nas pernas, nos pés... E eu deixo... tudo... é bom. A língua, os dedos, os lábios. Sentir, só sentir. Um homem que me dá prazer, que tem prazer em mo dar. Um homem. Só um homem, não um garoto, faz amor quando lhe dizemos que queremos sexo.

- Gostas? - pergunta a entrar em mim - Ah, é tão bom entrar em ti. Devagarinho. Quero gozar tudo, não sejas cabrona.

Rio-me e não deixo. Com as pernas à volta do pescoço dele, provoco-o. Forço-o e ele segura-se. Goza o meu calor, sente-o. Mexo-me devagar, para lhe dar prazer, para ver a cara dele, as narinas abertas, os olhos fixos nos meus.

- Sou pior que tu. Sou mais perversa.

- Sim?! Então agora ficas de castigo... queres-me dentro de ti? Só volto se me lamberes... adoro a tua boca...

Adora a minha boca... e eu a dele... aquela língua... E adoro sentir-lhe o sabor. Excita-me senti-lo a tremer de desejo, num quase grito, quase choro, as mãos abertas a agarrar o ar. E esmero-me... sei como o levar ao inferno e a querer tornar lá... e quando ele quer voltar a entrar em mim, não deixo... continuo a brincar com a língua, com a boca, é a minha vez de o transtornar e sentir as mãos dele na minha pele, a acariciar-me meigo, terno, frágil. Levanto-me. Debruço-me na secretária e deixo-o amar-me como quiser, profundo, delicado, ansioso... quero senti-lo. Como ele é, como ele o faz. E faz tão bem, deliciosamente bem.

- Anda - diz a beijar-me e deita-me no chão. A boca dele no meu peito, na barriga e desce novamente. Segura-me as ancas com as duas mãos, ergue-me e beija-me, a língua húmida percorre-me. E eu pairo, deixo-me ir, sentir tudo, todo o prazer que ele me oferece com prazer.

- Pára... entra. Com força, por favor - peço-lhe. Preciso de te sentir todo dentro de mim.

- Assim? É assim que queres? É?

E a voz dele transforma-se. Fica rouca, a respiração alterada. Grita o meu nome, repete-o e abraça-me. Beija-me e sossega. E eu com ele. Juntos, suados, cansados. Sorri. Diz que dei cabo dele. Eu nem me mexo, não consigo. É bom.

- Deslocaste-me a clavícula. Não me perguntes como.

Sorrio. Também não sei como. Também estou dorida. Mas tive o que queria. Já podemos ir jantar, sentir a noite quente de Lisboa e o silêncio. Partir e dizer foi bom estar contigo. Sem compromissos ou promessas de até amanhã. Sem véus.

Angel with Butterflies

8 de Junho de 2006

Para a Ana Fraga

Na neve
essa tua mancha escura,
que a minha boca
procura, sedenta, breve,
alonga-se
desatinada, escrupulosa
espada desembainhada,
rasga ventres, peitos
alucinados; longos instantes
encontrados.

in Homem, Fátima Pinto Ferreira

Agradecimento

Como dizer o que nos vai no coração em certos momentos? Mesmo procurando as palavras mais sábias ou as mais belas, não encontraria as que melhor traduziriam o que quero dizer.

Assim, só tenho uma palavra: OBRIGADA.

Obrigada pela vossa presença ontem na Fnac. A todos e, em particular, aos bloggers amigos que mostraram que a amizade também surge deste modo de viver e conviver através da palavra escrita.

Ao Prof. José Adelino Maltez - Sobre o tempo que passa -, que, além da surpresa que me fez... (brincalhão!), leu o livro e fez a dissertação magnífica que lhe ouvimos. E à Ana, que adorei conhecer! Para quem irei postar aqui um daqueles poemas de que falámos [expressamente dedicado a ti e à conversa que tivemos...].

Ao Rui Paula de Matos - Macroscópio -, por toda a generosidade e amizade que me tem dedicado e que ele sabe que é recíproca. E à Célia, também.

Ao Torquato da Luz - Ofício diário -, ao Eugénio de Almeida - Pululu -, ao Padre José Vieira - Jirenna -, ao autor d' O Jumento (queriam saber quem é?! Pois queriam. Mas não digo! eheheh), à Cas do Inconfidências (que veio do Porto e é uma amiga que não quero perder), ao cavalheiríssimo Leão da Lezíria da Mesa do café (que também não revelo, que isto de cavalheiros é para guardar sigilo...) e espero não me ter esquecido de ninguém. Se esqueci, peço desculpa mas a emoção foi grande e, já sabem, sou um bocado despistada...

E, por fim, mas apenas por ser muito especial, ao meu querido Jorge Ferreira, que conhece sobejamente todo o carinho e amizade que lhe dedico.

Obrigada a todos. Fizeram de ontem um momento único.

A amizade


"(...) E foi então que apareceu a raposa:

- Bom dia, disse a raposa.

- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.

- Eu estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira...

- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...

- Sou uma raposa, disse a raposa.

- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...

- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.

- Ah! desculpa, disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou:

- Que quer dizer "cativar"?

- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?

- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?

- Os homens, disse a raposa, têm armas e caçam. É bem incómodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?

- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?

- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."

- Criar laços?

- Exactamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou... "

Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho

7 de Junho de 2006

Hoje

Obrigada por todos os sms, mails, posts! :)
[Até logo e bjinhos]

Ler os outros:

.) Corta-Fitas - a ler, indiscriminadamente, como anti-depressivo :)))

.) A Fraude Alqueva e o Desafio - no Devaneios de um Caminhante Solitário

.) Freak-show - no Dragoscópio

.) Dignidade - no Escrita em dia

.) A mais bela vergonha do mundo - no Jirenna

.) O teleférico... - no Macroscópio

.) t - no Nu Singular

.) vários - n' O Jumento

.) Professores com vida de magnatas I - n' O mundo perfeito

.) Viva a taxa europeia... - no Sobre o tempo que passa

.) À atenção da oposição e Assino por baixo - no TomarPartido

Feliz aniversário, Antônio!


"(...) Você me desconhece. Não me sabe vivo. Não me ouviu a morte. E não cruzou comigo. Não pode me chamar de amigo. Ou pensar-me inimigo. Não pode recordar-me em nada. Nem me caluniar de culpas. Ou glorificar-me a feitos. Em nada que o tem estou. Em nada que lhe jaz existo. Nada que você tem me deu cobiça. Em tudo, nada fiz ou sou. Eu não estou em nada. As coisas é que estão em mim. E só possuo a mim. Ausente em todos. Presente em nada. Nada do que fiz me denunciou. E nada fiz além de mim.

Sempre me agarrei a mim e ao que sou. Sempre me reduzi a mim e onde estou. Sempre estive comigo além de mim mesmo. Sempre me encontrei sozinho junto de você. Sempre me encontrei comigo ao conhecer estranhos. Sempre me reencontrei comigo mesmo além de mim. Sempre me encontrei contigo dentro de mim mesmo. Nunca assassinei a mim dentro de ninguém. Nunca assassinei ninguém dentro de si mesmo. Sempre fiz viver a todos dentro de si mesmos. Sempre fiz viver a todos me doando todo. Sempre fiz viver a mim dentro de você. Sempre fiz viver você dentro de você. Sempre estarás comigo quando junto a ti. Sempre estarás em ti ao ajudares outrem. Pois ninguém defende a si contra ninguém: sempre iremos contra nós dentro de outro alguém. E tu encontrar-te-ás contigo ao conhecer estranhos. Pois o homem encontrará o homem sempre além do homem.(...)" - in Transecrise, de Antônio Henriques

Deste lado do oceano, envio os meus parabéns ao amigo de Porto Alegre cuja simpatia e atenção muito me têm dado alento nestas andanças da escrita de há uns tempos para cá. Pelas palavras de encorajamento e pela cortesia de todas as respostas, obrigada!

Bom dia

Que caminho?

-Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
-Isso depende muito do sítio para onde queres ir - respondeu o gato.
-Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.
-Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato.

Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas

Paraíso


Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

David Mourão-Ferreira

6 de Junho de 2006

Parabéns Malangatana!

Malangatana

Malangatana (Valente Ngwenya) nasceu em Matalana, Província de Maputo, a 6 de Junho de 1936. Fez hoje 70 anos. Um pintor que aqui já foi referido. De que gosto muitíssimo. Por tudo, parabéns!




O espectáculo ALEGRIA a não perder!

A ler (e já com leituras em atraso...), ver e ouvir:


.) Massacre da Praça de Tiananmen - n' A Fábrica

.) Os dias contados - n' A memória inventada

.) Figuras de estilo #31 Trindade Coelho - no Abencerragem

.) Ora hoje - no Anarca constipado

.) Pensamento do dia - no Café Moleskine

.) O Jardim autoritário e O veto ... - no Devaneios de um C. S.

.) Pedro Sousa Pereira - no Escrita em dia

.) imagens e música num blog simpatiquíssimo - o GingaSilver Spaces

.) Separar as águas e outros - na Grande Loja do Queijo Limiano

.) Emanuel - no Inconfidências

.) vários, com destaque para O céu não fala... - no Macroscópio

.) fotos (?!) - no Maquiavel & JB

.) O livro do ano - no Nada te turbe

.) vários, com destaque para Pasmaceira - n' O Jumento

.) Espanholeses - n' O mundo perfeito

.) Economia e moral - n' Os tempos que correm

.) Sobre o racismo - no Pululu

.) Contra a canalhocracia... - no Sobre o tempo que passa

.) 666 - no Tatarana

.) vários, destacando Escandaloso - no TomarPartido

.) Não os respeito e Pérolas a porcos - no Três Pastelinhos

Coisas...

Estava ao telefone com uma amiga e ela blá-blá-blá-blá... até que lhe pedi uma pausazita para ir buscar um café e os cigarros... Gentilmente enviou-me esta imagem que diz ser a minha cara chapada!

Obrigada! Com amigas destas....

... e loisas!!!


Não satisfeita, perguntou que flores eu quereria para este momento!!! Simpática!

Mais uma vez, obrigada! Mas não te incomodes...

Vidas de cão

A Cátia vive em Lisboa, tem 13 anos, nasceu numa família humilde e frequenta o 6º ano de escolaridade com maus resultados. O pai trabalha na construção civil e a mãe "anda a dias". Tem duas irmãs mais velhas, empregadas no Shopping. A Cátia "vai às aulas", como ela diz, "porque é obrigada". Tem namorado, "um miúdo lá da escola", isto dito com o ar de que lhe é absolutamente indiferente ou que o assunto é uma banalidade.

Irene, a mãe, andava "ralada". A Cátia já menstrua há uns meses e a mãe vivia em pânico que acontecesse "à sua mais nova" o que sucedeu à mais velha; engravidou e fez um aborto "numa senhora lá para Benfica...". Na verdade, a filha teve que ser levada para o Hospital quase morta, ensopada numa hemorragia que nunca mais parava. E a Irene não quer passar por isso mais vez nenhuma com as filhas. Já basta o que ela sofreu. "Tive que sofrer, porque não podia ter tanto cachopo".

A Irene levou a Cátia ao Centro de Saúde para que na consulta de Planeamento Familiar lhe dessem umas luzes para não engravidar. Com a filha do meio não teve estas preocupações. Ela é muito ajuizada e toma sempre a pílula, sem se esquecer, desde a primeira menstruação. Mas a Cátia é muito esgrouviada e ela tem medo. "Que isto, hoje, ninguém tem mão nestas raparigas, senhora. A minha Cátia tem dias que parece ter o diabo no corpo."

No Centro de Saúde, fizeram um implante sub-cutâneo à Cátia que evita que ela engravide durante três anos. Esta profilaxia, chamemos-lhe assim, está a ser usada nas rapariguinhas como medida para fazer descer as estatísticas da maternidade na adolescência. Este implante, como percebemos, conterá doses excessivas, senão brutais, de hormonas. A Cátia, como todas as outras cátias implantadas, tem meses em que não tem período, tem meses em que menstrua os dias todos. A Cátia tem treze anos e, se conversarmos com ela, apercebemo-nos que toda a sua sexualidade é um mundo a descobrir. E que ela sabe "umas coisas porque as "storas" já falaram disso lá na escola", diz com os olhos a fugirem para o chão.

Ninguém explicou à Cátia o que quer que seja. Nem a mãe, quem primeiro o deveria fazer mas ninguém dá o que não tem... Nem a Escola e, muito menos, os técnicos da consulta de Planeamento Familiar. A Cátia não engravidará. Os números da estatística não engrossarão por causa dela, nem de outras meninas como ela implantadas. A Cátia continuará a não saber nada e a desconhecer os riscos que pode correr. A Cátia continuará ignorante mas não entrará nos números que envergonham o Estado.

A Cátia também desconhece que do implante que lhe fizeram ninguém conhece as consequências que poderá ter na sua saúde, física e psíquica, que está em desenvolvimento e que o seu organismo está a ser modificado pelo implante. A Cátia desconhece tantas coisas. A Cátia é uma menina de 13 anos.

Sina


Podíamos ir, de baraço ao pescoço, até Madrid,
mas nem Espanha já nos quer, tem problemas que cheguem.
Resta-nos, portanto, andar por aí,
sem tão-pouco a esperança de que outros nos peguem.

O rei Sebastião entrou pelo nevoeiro,
com os seus imberbes vinte e quatro anos,
e a Europa, que foi o derradeiro
porto dos nossos desenganos,
quer pontapear-nos o traseiro.

Terão valido a pena Ourique, o Bojador,
o Cabo das Tormentas?
Tudo, afinal, ficou aquém da dor,
entre nuvens cinzentas.

Nem Maio nem Abril (que bem me lembro!)
nos libertam da sina de Novembro.

Torquato da Luz

Ingenuidades...

5 de Junho de 2006

Polemistas à antiga ?!

Tinha jurado a mim mesma não voltar a ler os artigos do Dr. João César das Neves. Até por uma questão hepática... o senhor tem o condão de me provocar uma secreção biliar dolorosa... com que a idade já não se vai compadecendo...

Mas li. Confesso que reli para me certificar que não me precipitara malevolamente nas conclusões. A dermatologia tratará estas erupções cutâneas, que advêm de certas leituras...

Pois bem, dando de barato os encómios e as bajulações a que o dito senhor já nos habituou, sobretudo no que concerne ao clero e aos media (vaidadezinha, hem??? é pecado, é pecado...), lê-se a parágrafos tantos que "(...) O desassombro do autor provém de um facto simples, a denúncia indignada do que ele considera um crime enorme e abominável, e que a sociedade encara com apatia ou cumplicidade: "Um morticínio de seres humanos inocentes e indefesos, através da legalização do aborto provocado (precocemente ou cirurgicamente), da fecundação extracorpórea, da experimentação em embriões, etc., (...)".

Não pude, não consegui ignorar o que o excelentíssimo senhor professor doutor João César das Neves escreveu!

Um crime enorme e abominável é o morticínio de seres humanos, gerados, nados e consubstanciados em carne e lágrimas, que todos os dias morrem de fome num mundo a que os senhores padres, não todos mas muitos - perdoem-me a generalização aqueles que não se enquadram neste paradigma, porque os há! -, fecham os olhos e a que a Santa Madre Igreja opulentíssima do Vaticano recusa o pão saciador!

Continuando, ainda mais esta pérola: "(...) Ele esforça-se a cada passo por mostrar que defende apenas, com rigor e detalhe, aquela que é a atitude da Igreja Católica e que foi a das legislações dos países civilizados até há muito pouco tempo. E também não se limita a lançar golpes brutais contra os adversários. O livro está cheio de referências eruditas, dados estatísticos, citações científicas e doutrinais. Na parte central a obra quase parece um tratado técnico sobre as questões da vida.(...) ou esta: "(...) A urgência e o dramatismo são as suas razões. A sua atitude, afinal, é a mesma daqueles que, em séculos recuados, desesperavam perante a modorra da sociedade diante de terríveis injustiças como a escravatura, holocausto, pobreza e exploração dos operários (...)

Sinceramente, perante isto que aqui está reproduzido nada mais acrescento do que a repugnância e o desprezo por quem isto escreve, lembrando que são estes católicos os que primeiro prestam um mau serviço à Igreja Cristã, no seu sentido mais literal. Recordando ainda que polemistas à antiga eram homens como um Padre Vieira, um Guerra Junqueiro ou um Eça de Queiroz que escreveram, entre outros, o Sermão aos Peixes, a Oração ao Pão ou o Crime do Padre Amaro!

Secularização e secularismo

[artigo do Prof. Anselmo Borges, no DN]

Este é um texto a não perder. De uma forma tão brilhante quanto surpreendente, porque escrito por um padre da Igreja Católica Apostólica Romana, com todo o peso institucional que esse pormenor logo à partida comporta e implica, eis uma explicação para o entendimento do vazio moral, ético e social dos tempos que vivemos, perdidos no vácuo das ideias e dos pressupostos materialistas por que se rege o Ocidente, arrastando consigo as restantes sociedades, desrespeitadas na sua integridade histórica pelo capitalismo feroz que nos tem regido e que as obriga a uma cumplicidade indesejada ou a uma capitulação ainda mais humilhante.

Este vazio moral e ético conduziu à histeria social das nações, à perda de qualidade de vida interior e a toda a degradação a que vamos, impávidos uns e revoltados os demais, assistindo.

Partindo de um princípio que defendo - a fé como uma necessidade universal mas não necessariamente colectiva - e lendo as palavras do Professor Anselmo Borges:

"(...) Na perspectiva bíblica, o Deus transcendente pessoal cria o mundo a partir do nada e por um acto de pura liberdade de amor. A criação assim entendida implica uma diferença qualitativa infinita entre Deus e a criatura e a real autonomia do mundo, que é mundano e não divino, e é o fundamento da aliança do Deus-Liberdade com homens e mulheres livres. Se Deus cria a partir do nada, por amor e não por necessidade, então não há rivalidade nem concorrência de interesses entre Deus e a criatura. Pelo contrário, a vontade de Deus é a realização plena do homem: quanto mais vivo e realizado o ser humano for mais Deus é glorificado.(...)"

entender-se-á que a espiritualização do indivíduo, como caminho pessoal, será o primeiro passo para um enriquecimento próprio que, por sua vez, contribuirá para um enriquecimento colectivo. Isto é, cada indivíduo, livre nas suas escolhas religiosas, mesmo que estas sejam o ateísmo, poderá ser um cidadão contribuinte para um melhor mundo de Deus. Ou seja, a espiritualização não tem que ser meramente a prática de uma religiosidade, mas a de uma filosofia que contribua para o bem comum.

Assim, todas as religiões são igualmente ponderáveis e respeitáveis àparte o seu cunho teosófico, desde que a sua prática conduza a um bem colectivo que reflicta a realização do ser humano como Deus desejaria. Este Deus é, deste modo, inteligido nas suas múltiplas faces. Uno na essência, mas plural nos caminhos para atingir a unidade.

Porém, uma outra leitura jaz implícita nestas palavras. Onde se lê que o mundo é autónomo, mundano e não divino, lemos que são os homens que criam o mundo, em que vivem, à sua imagem e semelhança, usando do livre-arbítrio que Deus deu à criatura por si criada.

Ora, assim sendo, questionamo-nos: como foi possível a interpelação a Deus feita por Bento XVI em Auschwitz? O Papa ao verbalizar tais questões esvaziou de culpa as acções humanas, não só as do Vaticano à época, mas as dos que as teorizaram, implementaram e concretizaram. Um Papa não pode nem deve falar irreflectidamente. Ratzinger fê-lo. Porque foi o homem Ratzinger quem falou e não um Papa. Nenhum Papa, como nenhum chefe de Estado, pode ou deve renegar a constituição do estado que chefia. E a do Vaticano é a mais antiga constituição, segundo dizem a sua é a palavra de Deus feita verbo por Cristo.

No momento em que aquelas palavras foram proferidas, Bento XVI criou, não tenhamos dúvidas, uma cisão tremenda e um precedente que abre todo um caminho perigoso e permissivo à Moral, à Ética e ao Direito. Ao imputar a culpa dos actos praticados pelos homens à ausência de Deus num determinado momento histórico, não só questionou a existência de Deus como inimputou todo e qualquer criminoso dos seus actos. Como condenar um terrorista? Como condenar um criminoso de guerra? Como condenar um qualquer criminoso? Não o terá Deus abandonado nesse momento? Não terá abandonado a vítima? E porquê? Porque o terá feito? Todas estas questões, heresia pura aos olhos da doutrina da Santa Madre Igreja, foram ditas pelo Papa Bento XVI em Auschwitz!

Nas palavras escritas pelo Professor Anselmo Borges, neste artigo do DN, lemos efectivamente que o mundo criado por Deus para os homens é mundano e não divino; somos nós que criamos os nossos monstros e as nossas ignomínias, somos nós que criamos a paz e a felicidade. E seremos nós a responder pelo que tenhamos feito. Onde? Eventualmente aqui mesmo, nos nossos dias, somos nós que vivemos os nossos infernos e são as nossas consciências que os poderão aumentar ou reduzir à inexistência. Assim haja vontade para criar um mundo mais equilibrado, consciente dos seus actos e das consequências deles. Para isto não precisaremos de ser religiosos, apenas de ser pessoas com valores, respeitadoras da liberdade de existir. Não teremos que ser um rebanho cordato e pastoreado por homens, porque eles são tão falíveis quanto nós, pois são simplesmente homens que manipularam verdades para se auto-intitularem donos da verdade. Qual verdade? É isto que resta perceber, pois tudo está em desagregação, mesmo a Igreja que secularmente se tem vindo a secularizar num secularismo agudizante e agonizante... - "(...) secularismo, termo criado pela Londoner Secular Society, fundada por G. J. Holyoake, em Londres, em 1846, cujo programa consistia resumidamente em conceber e organizar a vida prescindindo de Deus e da religião (...)" - que fez Bento XVI em Auschwitz senão prescindir do seu Deus e da sua religião?!

"(...) a dinâmica adulta do cristianismo (...)" entender-se-á assim como a liberdade de cada cristão viver Cristo (em Cristo e com Cristo) segundo a sua consciência e inserido numa sociedade que prefere a paz e a multiculturalidade ao dogma. É esta emancipação que se depreende. Contudo, esta é também uma posição conflituante porquanto o Vaticano insiste no afunilamento da religiosidade e no seu afastamento da realidade social. Uma religiosidade desfasada do homem e das suas necessidades e realidades quotidianas não serve o próprio homem, antes o afasta e confunde, perdendo ele a espiritualidade devido à descrença naquela que deveria ser o seu ânimo e fôlego nos momentos de desesperança. O homem vazio de espiritualidade é o homem descrente que a Igreja criou, com o seu fausto e arrogância e que não serve a fé dos homens nem a Cristo - aniquilamento dos valores cristãos por aquela que deveria ser a sua mais acérrima defensora. Aniquilamento político e social porque os homens que fazem política e morigeram a sociedade são os homens que a Igreja aniquilou na sua fé, criando descrentes que preferem a fé no capital e no materialismo à fé nos princípios que Cristo difundiu e que os religiosos, através dos séculos, adulteraram. O aniquilamento das sociedades ocidentais é resultante apenas do divórcio consumado pela Igreja com a sua filosofia de base quando se secularizou e temporalizou, pretendendo catequizar pela força e pela obrigação, impondo-se como credora de todos os bens terrenos e de todas as obediências, e não pelo exemplo e prática da moral que diz ser a sua. Cristo não obrigou alguém a segui-lo, convidava, exercia a sua teoria, falava. Convivia com todos. E este conviver com todos significa que todos podem caminhar para o Deus uno sem ter que ser católicos - recorde-se o que Cristo terá dito já na cruz ao bom ladrão... que não era um dos seus seguidores... mas que estaria com ele no reino do Pai... - isto é tão simples de entender! Todo e qualquer um pode ser bom aos olhos de Deus, mesmo os que são tidos por diferentes. Os recursos simbólicos são os valores que cada religião, ou ausência dela, contem enquanto valores colectivos de prática comum de paz e de realização humana, não sendo obrigatoriamente a religiosidade católica.

Um dos pontos mais brilhantes deste texto do Professor Anselmo Borges é precisamente o reconhecimento da pluralidade de vozes desde que aceitem "traduzir a sua mensagem em linguagens públicas e universalmente acessíveis" , lembrando-nos que a laicização do Estado em nada colide com a prática religiosa e que, inclusive, pode ser benéfica para uma melhor convivência e respeito mútuos já que a "(...) separação da(s) Igreja(s) e do Estado constitui um avanço civilizacional fundamental em ordem à não discriminação dos cidadãos e à salvaguarda da paz (...)"

Podemos, pois, perceber o velho ditado latino que dizia que todos os caminhos iam para Roma; hoje, finalmente, começa-se a vislumbrar que todas as vias espirituais conduzem a Deus. Ou, doutra forma, o entendimento entre os homens e o respeito mútuo apesar das diferenças é que conduz à Paz e esta, para os crentes, é que levará à glorificação de Deus.

Este é o tempo

Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam

Sophia de Mello Breyner

4 de Junho de 2006

A face da guerra

Salvador Dali

in An Iraqi tear


"After noon March 14, Fayiz Harrat, 27 years, and his sister Fayiza, 35 years, were back together to their home, the both were teachers in the only school in al- Siffa village near Samara.

Fayiza and her two kids Usama Yousif, 6 yeas, and Asma, 5 years, live with Fayiz after the Americans killed her husband last summer.

Fayiz and his wife Sumaya had three kids Hawra, 4 yaers, Aysha 2 years and Husam 4 months. The granmother lived with them.. on the same day , they had two guests Aziz Khalil, the cousin of Fayiz, and his fiancée Nidhal who were arranging the preparation of their wedding on March 16.. After the midnight, their house was seiged.. Humves, Tanks, helicopters and tens from the Americans soldiers who rushed in the house serching and shooting, after a while the helicopter missiled the house..

The American official communiqué said that they raided a house harbored terrorists and they killed some of them and the collateral damage was 4 civilians.. Yet the truth according to the people of the village, the kids of the school and the relatives is: The 4 women, 6 children and Fayiz were killed.. 11 civilians..

The photos are very painful, sorry, but you should see the truth; these are the "terrorists".

Send the photos and the names to your congressmen; ask them to be honest and noble.. sak them to see the quite smile of the face of martyr Aysha.. She was killed while sleeping; she was dreaming a colored dream without bombs, ashes, deads and Americans..

I am not asking your tears; I am asking your efforts..

Say NO to Bush the terrorist.. ask your congressmen and your conscious to define the word "TERRORISM".. is targeting and killing the children terrorism? the answer depends on your humanity.. " - posted by the woman i was


Tradução

"Após o meio-dia de 14 de Março, Fayiz Harrat, de 27 anos, e a irmã Fayiza, de 35, regressavam juntos a casa, eram ambos professores na única escola em al-Siffa, uma aldeia perto de Samara.

Fayiza e os seus dois filhos, Usama Yousif de 6 anos e Asma de 5, viviam com Fayiz depois de os Americanos terem morto o seu marido no Verão passado.

Fayiz e a sua mulher Sumaya tinham três filhos Hawra, 4 anos, Aysha de 2 e Husam de 4 meses. A avó vivia com eles. Nesse mesmo dia, eles tinham duas visitas, Aziz Khalil, primo de Fayiz, e a sua noiva Nidhal que estavam a tratar dos preparativos do seu casamento, a 16 de Março. Depois da meia-noite, a sua casa foi cercada... Humvees, tanques, helicópteros e dezenas de soldados americanos que invadem a casa, revistando e disparando, passado um pouco o helicóptero lança um míssil na casa.

O comunicado oficial americano relatava que tinham feito um raid a uma casa que albergava terroristas, tendo abatido alguns deles e que os danos colaterais eram 4 civis. Todavia a verdade segundo as pessoas da aldeia, crianças da escola e familiares é: as 4 mulheres, 6 crianças e Fayiz foram mortos... 11 civis...

As fotos são muito dolorosas, desculpem, mas é preciso que saibam a verdade; estes é que eram os "terroristas".

Enviem as fotos e os nomes aos vossos congressistas; peçam-lhes que sejam honestos e nobres... peçam-lhes para verem o sorriso tranquilo na face da martirizada Aysha... Ela foi assassinada enquanto dormia; ela sonhava um sonho colorido sem bombas, cinzas, mortos e Americanos...

Eu não estou a pedir as vossas lágrimas; eu peço-vos o vosso empenho...

Digam NÃO ao terrorista Bush... perguntem aos vossos congressistas e à vossa consciência para definir a palavra "TERRORISMO"... será terrorismo alvejar e assassinar crianças? a resposta depende da vossa humanidade..." - postado por the woman I was

Mare nostrum...


o mar da minha terra, lindo...

Terra nostra...


Vidas de cão

"(...) fui professora de Português, de Literatura Portuguesa e de Latim no ensino secundário.

- E porque é que deixou? Não gostava?

- Gostava de estar com os alunos, de os motivar e de os ouvir, de os ver crescer na medida em que elaboravam pensamentos mais elaborados e se expressavam melhor. Mas detestei a mecânica do professor, é burocrática e padronizada. E eu entendo que o ser professora, ou ensinar, não pode estar milimetricamente espartilhado em programações previamente estabelecidas; trabalha-se com jovens e é precisa flexibilidade. Por vezes, uma aula que não tem a ver com a matéria do programa produz melhores resultados na aprendizagem do que o cumprimento estrito da planificação. Certo ano, numa escola de Lisboa, tive umas turmas do 8º ano, miúdos rebeldes e carentes de atenção e de diálogo, da planificação constava como leitura obrigatória As pupilas do senhor Reitor. Eles não liam, de dia para dia a leitura era esquecida. Decidi propor-lhes a leitura d’ A Pérola, de Steinbeck, e que apresentassem ideias para os trabalhos de grupo. Num fim-de-semana leram o livro e, entusiasmadíssimos, só queriam debruçar-se na exploração das personagens na aula seguinte. Adoraram ler. Pura e simplesmente. Porquê? Porque as emoções extravasaram. Um adolescente, quando bem motivado, desdobra-se e dedica-se. Uma questão de sensibilidade. Eu, fui chamada à pedra! Não era literatura portuguesa. Mas a disciplina era a de Português, nem era a de literatura. O que importava? Depois de se descobrir o prazer de ler, lê-se. Não aceitaram e, muito menos, entenderam. Para mim, fiz bem, cumpri o meu papel. Para os meus superiores, procedi mal porque não cumpri as regras por eles estabelecidas. Percebe por que deixei o ensino? Gosto de comunicar e hoje faço o que gosto, enquanto gostar. (...)"

Semântica Electrónica



Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!

Vitorino Nemésio