20 de Agosto de 2008

O cão e eu


Hoje, encontrei-me com o cão dela.

Eu e o Pucky almoçámos no Funil para discutir as questões do país.

Concordámos em quase tudo, menos no uso das pulseiras electrónicas pelos reclusos e na implementação do Cartão Único, matérias em que o Pucky é bem mais liberal do que eu.

Quanto ao Governo, mesmo aflito, deve safar-se. Dona Manuela tem ajudado e não vislumbrámos razões para que assim não continuasse.

Como bem disse o Pucky, "em política, o silêncio não é de ouro".

José Carlos Mégre

Estado gastou 14 milhões em projecto falhado

"(...) O Governo contratualizou com o COP o trabalho de preparação para os Jogos de Pequim, cabendo ao COP lidar directamente com os atletas, com as federações e preparar a deslocação à China. O Governo assegura a componente financeira, com um investimento de 15 milhões de euros, “14 milhões, mais um milhão para as despesas de deslocação”, de acordo com o secretário de Estado do Desporto, Laurentino Dias (...)". Lia-se há 6 meses, na página online da Renascença.

O texto do DN de hoje, cujo título é o deste post, é lamentável apenas pela foto que o ilustra.

O projecto não falhou por causa de Naide Gomes, nem foi por causa dela que o Estado gastou 14 milhões de euros "mais um milhão para as despesas de deslocação".

O DN ter colocado a foto da atleta em destaque neste artigo não é realmente lamentável. É de uma cretinice atroz.

Naide Gomes, por não ter sido apurada, não deverá ser o "rosto-bode-expiatório" para o esbanjamento, a megalomania e a má gestão financeira do COP e do seu "negócio da China".

Já agora, uma pergunta: o "milhão para as despesas de deslocação" como foi administrado? Quantos técnicos, quantos representantes de entidades oficiais, enfim, a quem foi paga a deslocação com esse milhão além da dos atletas?

Procura a maravilha


Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.

Eugénio de Andrade

Carnival fights fasting

Yerka

15 de Julho de 2008

Até breve

13 de Julho de 2008

Cazuza

              "O tempo não pára"

Danos colaterais previsíveis

helge reumann

Helge Reumann

12 de Julho de 2008

Plenitude

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Piet Mondrian

 

A segurança destas paralelas

- a beira da varanda e o horizonte;

assim me pacifico, e é por elas

que subo lentamente cada monte.
O tempo arrefecido, e só soprado

por uma brisa tarda que do mar

torna este minuto leve aconchegado,

traz mansas as certezas de se estar.
E vêm novos nomes: são as fadas,

gigantes e anões, que são assim

alegres de o serem - parcos nadas
que enchendo de silêncios este sim

dele fazem brinquedos, madrugadas...

Agora eu estou em ti e tu em mim.

Pedro Tamen

O caminho marítimo para cá

yam

Yam

11 de Julho de 2008

Fábula de um arquiteto

Óscar Niemeyer


A arquitetura como construir portas,

de abrir; ou como construir o aberto;

construir, não como ilhar e prender,

nem construir como fechar secretos;

construir portas abertas, em portas;

casas exclusivamente portas e teto.

O arquiteto: o que abre para o homem

(tudo se sanearia desde casas abertas)

portas por-onde, jamais portas-contra;

por onde, livres: ar luz razão certa.

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Até que, tantos livres o amedrontando,

renegou dar a viver no claro e aberto.

Onde vãos de abrir, ele foi amurando

opacos de fechar; onde vidro, concreto;

até refechar o homem: na capela útero,

com confortos de matriz, outra vez feto.


João Cabral de Melo Neto

A escola da aldeia

jan steen3.the village school

Jan Steen

10 de Julho de 2008

Que rolem as cabeças!



Trufas e caviar no jantar da Cimeira do G8 sobre a Fome, no Japão.

(…) Reunidos sob o signo dos altos preços dos bens alimentares nos países desenvolvidos - e consequente apelo à poupança -, bem como da escassez de comida nos países mais pobres, os chefes de Estado e de Governo não se inibiram de experimentar 24 pratos, incluindo entradas e sobremesas, num jantar que terá custado, por cabeça, a módica quantia de 300 euros.

Trufas pretas, caranguejos gigantes, cordeiro assado com cogumelos, bolbos de lírio de Inverno, supremos de galinha com espuma de raiz de beterraba e uma selecção de queijos acompanhados de mel e amêndoas caramelizadas eram apenas alguns dos pratos à disposição dos líderes mundiais, que acompanharam a refeição da noite com cinco vinhos diferentes, entre os quais um Château-Grillet 2005, que está avaliado em casas da especialidade online a cerca de 70 euros cada garrafa.

Não faltou também caviar legítimo com champanhe, salmão fumado, bifes de vaca de Quioto e espargos brancos. Nas refeições estiveram envolvidos 25 chefs japoneses e estrangeiros, entre os quais alguns galardoados com as afamadas três estrelas do Guia Michelin.

Segundo a imprensa britânica, o "decoro" dos líderes do G8 - ou, no mínimo, dos anfitriões japoneses - impediu-os de convidar para o jantar alguns dos participantes nas reuniões sobre as questões alimentares, como sejam os representantes da Etiópia, Tanzânia ou Senegal (…)”.

Só, enfrenta o horizonte

9 de Julho de 2008

Quem?

 

L_3667 Albena Nikolova

8 de Julho de 2008

Entre dos aguas

Paco de Lucia

Com as gaivotas

Contente de me dar como as gaivotas
bebo o outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.

Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou dum céu que tem gaivotas,
leve o diabo essa morte dia a dia.

Eugénio de Andrade

A dialéctica da lide

anna sommer

Anna Sommer

7 de Julho de 2008

Rei Cortiço

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Rei Cortiço é nome de praia

Rei Cortiço é nome de falésia

Rei Cortiço é nome de valsar

Rei Cortiço é nome de beijar

Rei Cortiço é nome de tentar

Rei Cortiço é nome de tocar

Rei Cortiço é nome de subir

Rei Cortiço é nome de descer

Rei Cortiço é nome a não esquecer

Luz e Sombra

miep jukkema luz e sombra

Miep Jukkema

6 de Julho de 2008

"Atrás da porta"

Elis Regina

Mulheres de cabeleira

021.jpgBogdan Prystrom

Bogdan Prystrom

5 de Julho de 2008

Cena de máscaras

Los cortejantes vienen y van por el bosque de vidrio de sus vanidades. ¿Qué verdad puede estar debajo de las plumas y los géneros bestiales de un niño disfrazado de San José de Cupertino? Con la tormenta, fosforecen los cortejantes. Despavoridos, huyen de esa ilusión que da siempre la lluvia.

Moran alrededor del rayo con sus bocas cosidas. Moro en una estatua que me deshabita -vanamente- como al seco árbol maldecido por el dios encarnado. Hágase tu voluntad en los candiles de terrible esplendor; encántame la gracia de aquel fuego azul sobre las torpes cabezas.

Nada oprime tanto como un zaguán de desesperación repleto de objetos minúsculos. Veo el marfil enhiesto, tatuado de las bocas futuras. Nadie se resigna a permanencia o se arrebata frente al poliedro de la noche final. ¿Son ingenuos los desechos, estos restos de cera? ¿Quién se adueña del humo que aparta y transforma las sustancias?

Da vueltas la ronda de peregrinos hasta desvanecer el último reflejo en las persianas. Ayer, rugía el animal de presa entre las felpas vampiras del carruaje. Dejaba su simiente. ¡Trapos veladores, impasibles, inútilmente exquisitos, desfondados!

Iba mi corazón latiendo por el hielo.

Manuel Lozano

Thelonious Monk toca Duke Ellington

 
"My Solitude" (Berlim - 1973)

cincos de Julho

amantes

Magritte

 

5 de Julho, 730 tardes atrás, encontrei-te: com hora, mesa e identificador.

5 de julho, hoje: encontramo-nos de pucarinho, cama, mesa e roupa lavada.

O ponto de situação é o menos: é no mais que está o ganho: gosto, desgosto, não, sim. Um encantamento que volta sempre, pelo caminho denso e solúvel, sol-lua, dia-noite - tempo de horas em cada minuto deslumbrado, fogo de todos os minutos, nunca queimado.

Pairamos na desforra do passado, num sempre presente.

Eternamente.

   Fátima - Zé Carlos

Madrigal

noite

A minha história é simples.

A tua, meu Amor,

é bem mais simples ainda:

"Era uma vez uma flor.

Nasceu à beira de um Poeta..."

Vês como é simples e linda?

(O resto conto depois;

mas tão a sós, tão de manso

que só escutemos os dois).

 

Sebastião da Gama

Estás aí?

Joseph Hoflehner Socotra 2005

Joseph Hoflehner

2 de Julho de 2008

Libertada

Ingrid Betancourt foi libertada.

"(...) há seis anos mantida em cativeiro pelas Farc, foi libertada nesta quarta-feira pelo Exército colombiano, junto com 11 reféns, entre eles três cidadãos americanos, anunciou o ministro da Defesa da Colômbia, Juan Manuel Santos (...)".

Ver as palavras

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Sebastião Salgado

 

À tua palavra me acolho lá onde
o dia começa e o corpo nos renasce
Regresso recém-nascido ao teu regaço
minha mais funda infância meu paul
Voltam de novo as folhas para as árvores
e nunca as lágrimas deixaram os olhos
Nem houve céus forrados sobre as horas
nem míseras ideias de cotim
despovoaram alegres tardes de pássaros
O sol continua a ser o único
acontecimento importante da rua
Eu passo mas não peço às árvores
coração para além dos frutos
Tu és ainda o maior dos mares
e embrulho-me na voz com que desdobras
o inumerável número dos dias

Ruy Belo

A arte de V. Horowitz

                        Vladimir Horowitz tocando Bach-Busoni

O mar

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Antes que o sonho (ou o terror) tecesse
Mitologias e cosmogonias,
Antes que o tempo se cunhasse em dias,
O mar, sempre o mar, já estava e era.
Quem é o mar? Quem é aquele violento
E antigo ser que rói os pilares
Da terra e é um e muitos mares
E abismo e esplendor e acaso e vento?
Quem para ele olhar vê-o pela primeira vez,
Sempre. Com o assombro que as coisas
Elementares deixam, as belas
Tardes, a lua, o fogo de uma fogueira.
Quem é o mar, quem sou? Sabê-lo-ei no dia
Que se segue à agonia.

Jorge Luís Borges

Feeling a bit whoozy...

Wulffmorgenthaler

E então, que quereis?...

Jonathan Chritchley


Fiz ranger as folhas do jornal
abrindo-lhe as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
ficaríamos tristes?
O mar da história é agitado.
As ameaças
e as guerras
atravessaremos,
rompendo-as ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

Vladimir Maiakovski

Ananas crowd

1 de Julho de 2008

Dos outros

.) Paisagens - A barbearia do senhor Luís

.)
Da imbecilidade - Albergue dos Danados

.) Festa? - Alexandre Pomar

.) O Oportunismo - Arestália

.) O Pavilhão de Portugal - jcd, Blasfémias

.) Obama’s First Ad: The Character Issue - Britannica blog

.) Marcelo e a lavoura no campus da Clássica - Câmara Corporativa

.) Nova Iorque na Madeira - Pedro Correia, Corta-fitas

.) Matraquilhices - Dragoscópio

.) Memória e silêncios - Entre as brumas da memória

.) Dedicado aos inteligentes - TomarPartido

Poema XVIII


Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

Eugénio de Andrade

Pianist

30 de Junho de 2008

Basia multa


Quaeris, quot mihi basiationes
tuae, Lesbia, sint satis superque.
quam magnus numerus Libyssae harenae
lasarpiciferis iacet Cyrenis
oraclum Iovis inter aestuosi
et Batti veteris sacrum sepulcrum;
aut quam sidera multa, cum tacet nox,
furtivos hominum vident amores:
tam te basia multa basiare
vesano satis et super Catullo est,
quae nec pernumerare curiosi
possint nec mala fascinare lingua.

Gaius Valerius Catullus

6 dias em contagem decrescente

pierre charriau ready made-images

pierre charriau (ready made images)


365x2=730

730-6=724

O que são 6 dias em 724??

Os 6 que faltam para 2 anos.

Uma ninharia ao pé do que já foi

E ao pé do que será.

Quantos 730 dias nos dará ainda a vida?

Não sei - mas é urgente saboreá-los até à última gota.

No tempo do dia seguinte.

Verão

29 de Junho de 2008

Blue lovers

Monika Krist

No tempo do dia seguinte, romper-se-á o tempo.
E mergulharei na cratera para o cerzir.
De esperança.

Paisagem

Tarsila do Amaral

28 de Junho de 2008

Jorge Sampaio

Pedi ao Dr. Jorge Sampaio um depoimento para um trabalho universitário que estou a fazer. Convidou-me a ir a sua casa esta tarde e conversarmos sobre o tema proposto.

Numa sala austeramente confortável, bonita e despretensiosa, conversámos sobre a Paz, os conflitos sociais e religiosos, a AoC, política e literatura clássica e muitos outros assuntos, bebendo chá gelado.

[Um destes dias hei-de publicar a Oração de Sapiência que o Dr. Jorge Sampaio fez em Aveiro, quando recebeu o Doutoramento Honoris Causa. É um discurso brilhante. Ficará para outro dia.]

A páginas tantas, perguntei o que o levaria, hoje, aos 68 anos e amadurecido por todas as vivências políticas que experimentou, a descer à rua e participar numa manifestação. Quem o conhecer minimamente sabe que é genuína a comoção do homem que nunca abdicou da sua humanidade e que mantém intacto ainda muito do seu idealismo. Olhou-me surpreso, mas respondeu de imediato: se fosse necessário sair à rua, seria com certeza para me manifestar contra a exclusão e a desigualdade.

Penso que a ignorância é a pior das exclusões. Concorda? - insisti.

- Evidentemente. - respondeu com um brilho nos olhos de quem ainda se imaginou a combater na rua como nos longínquos anos 60 do século passado.

Continuámos a falar por mais algum tempo.

Foi uma tarde saborosamente tranquila, pacífica, de uma paz de quem está de bem consigo mas sabe que ainda há muito por fazer e desistir nunca.

Silêncio

Apetece-me o silêncio do vento nos cabelos
desalinhados deste sentir que só no silêncio me escuto.

O Bernardo

Quando o Bernardo morreu, vai para mais de 5 anos, morri duas vezes: por ele e por mim.

O Bernardo era diabético de alto grau; várias vezes o assisti, em hipoglicémias galopantes e epilepsadas, trementes e terríveis. Aos 15 anos, em Vila Real de Santo António, numa otite aguda e febril, fui-lhe distribuindo a insulina rápida telecomandado pelos telefonemas do Prof. Eurico Lisboa e guiado pelas fitas sangradas das picadas no dedo, hora a hora. Intermediei , um ano depois, uma apendicite aguda debatida entre receios médicos e insuficiências hospitalares de província, que culminaram com um helicóptero para a Cruz Vermelha. Angustiámo-nos - ele nos Estados Unidos, eu em Lisboa - com um ataque fulminante, escada abaixo, que o deixou sem dentes aos 21 anos. Pressenti qualquer coisa numa madrugada de Março 1996, ele de borco, a sufocar, entalado entre a sanita e a parede, 30 anos feitos, libertado a pulso e coluna torcida.

O Bernardo era isso e a alegria de viver possível em quem sabe não ter uma vida longa. Adorava fumar, comer petiscos, ser bancário e sornar quando voltava a casa para estar onde e com quem mais gostava.

Tinha uma filha linda e 6 anos depois dos 30 morreu a dormir, satisfeito da almoçarada com os colegas.

Eu perdera os últimos 5 desses 6 anos, ausente profissionalmente no Brasil.

O Bernardo sabia que eu sabia o que ele sabia. Havia uma cumplicidade dessas lutas com a morte e bastava.

Não éramos de lamechices, nem cartas e raros eram os telefonemas. Mas a gente sabia.

Foi por isso que morri duas vezes.

José Carlos Mégre

Plano inclinado


Vivo num plano inclinado
se ando escorrego
parada deslizo

Preferia vasos transbordantes,
ao encher cairia sempre noutro lado.

Chrysanthemum Syndrome

27 de Junho de 2008

Round midnight